quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCIII)


Por Germano Xavier

"tradução livre"



Estrutura para ungir orvalhos

Une structure pour oindre la rosée

Il y avait de l’or et des grottes là où nous avons creusé,
à l’aide de la poésie, du temps. On s’en est servi
pour lapider l’art de construire la nostalgie,
Quelle quantité de nostalgie pourra-t-on ranger dans un siècle ?
Et les regards ? Et les amours ? Combien de siècles
se tiendront debout dans un regard rêveur, amoureux ?
Et combien d’amours pourra-t-on garder dans un siècle
nostalgique et son regard ? Qu’en est-il de l’amour, oui, de l’amour ?

Et l’homme converti en poésie et en ombre,
L’homme devenu silence
Devenu nuage, autrefois, est devenu pénombre.
L’homme des silences absolus
c’était moi, peut-être.
(Cryptographié en chair vivante).

L’homme, il lui faut juste la mer,
Une mer à lui seul.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/mil%C3%A3o-cemit%C3%A9rio-escultura-2698731/

domingo, 10 de dezembro de 2017

Minha vida e o português brasileiro contemporâneo



Por Germano Xavier


Desde que inventei de assumir o posto de professor pela primeira vez em minha vida, ali pelos idos do ano de 2004, precisei mudar o trato para com a Língua Portuguesa. Antes, aquele jovem professor, com vinte anos incompletos, muito inexperiente e refugiado em um mundo onde a literatura representava o reino mais perfeito dentre todos os outros possíveis, facilmente confundia o que era mesmo importante a ser reforçado ou levado à discussão diante de uma plateia que, por vezes, passava dos cem alunos. O jovem professor que fui, encantado de maneira plena com a possibilidade de poder auxiliar pessoas em suas diversas escolhas profissionais ou de vida - propriamente dita -, ainda desconhecia em parte o poder dos letramentos.

Foi com o tempo - e já se passaram 13 anos até então -, que o professor que sou foi se formando e adquirindo o que outrora muito lhe custou: a plena percepção de que promover o letramento de seus aprendizes através de estudos novos e reformados da língua e seus afluentes era o caminho mais aprazível a se almejar. Assim, a gramática – dura e pura – começou a ceder espaço para atividades epilinguísticas, que percorrem um caminho de análise que parte do uso para, no fim, retornar ao uso, passando antes pelo momento da reflexão. A minha fala foi deixando de ser uma fala forte, de tom único, que se expandia pelo vão das salas tal qual uma verdade absoluta, tal qual um colosso inquebrantável. A minha fala deixou de ser a “minha fala” e se transformou na fala dos meus alunos, na fala de suas experiências de vida, na fala dos outros que somos, na fala das ruas, na fala dos acontecimentos, na fala do mundo.

Destarte, aprendi que textos autênticos, falados e/ou escritos, dotados de força vital, seriam as melhores armas para fazer com que meus aprendizes partissem diretamente para o momento de beleza máxima que é o da construção de sentidos, não estritamente ligados à língua, mas também os seus próprios sentidos percebidos enquanto seres humanos singulares um a um. Com isso, em minhas aulas, adentraram a sala de aula os mais diversificados autores, músicos, poetas, escritores e artistas em geral, de todas as categorias e nichos, com ou sem prestígio social, aclamados ou não pela crítica muitas vezes burra e parcial de nosso país. Foi quando comecei a dar aulas de base semântica utilizando um cedê da funkeira ou do pagodeiro da moda, quando fiz um debate de cunho mais pragmático relacionando o noticiário do momento e quando prestigiei a análise dos discursos assistindo aos vídeos mais descolados que tanto faz a cabeça da garotada.

Esqueci de destacar: nesses 13 anos como professor, tenho escolhido ser professor de alunos menos favorecidos socialmente, alguns muito pobres, outros residentes em localidades fincadas em zonas rurais quase que totalmente esquecidas pelo poder público do Brasil, que sofrem com carências mínimas relacionadas aos mais comuns dos direitos humanos, como falta de água, alimentação e moradia. Um Brasil profundo que muitos professores, pelos mais diferentes motivos, desconhecem ou fingem desconhecer. Esses aprendizes, ou seja, aqueles meus alunos que mais dificuldades passaram durante a vida escolar – e também não só durante a vida escolar -, foram os que mais me fizeram aprender sobre a necessidade de eu reformar métodos e planos de ensino.

A língua, num olhar geral, só é ativada a partir do momento em que se dá a produção de sentido no interior de uma força de interação social. Se não ocorrer tal fenômeno, de nada servirá aprender ou ensinar uma língua. É a partir do uso que o falante se constitui enquanto ator social, é a partir do uso que o escrevente se forma cidadão pensante, é a partir do uso que as gramáticas se fortalecem e se sedimentam como bases necessárias... Portanto, é a partir da vida que pulsa em cada novo aprendiz que o ensino-aprendizagem de uma língua se legitima. E tem sido assim comigo, desde que adotei o português brasileiro contemporâneo como idioma a ser ensinado em quaisquer das salas de aula por onde passei - zonas rurais e interior da Bahia e de Pernambuco, na capital do Maranhão e na capital da Paraíba - e que, indubitavelmente, ainda transitarei.

Partindo do pressuposto de que somente há língua em uso e de que todas as engrenagens atreladas a ela constituem atividades próprias à natureza humana, minha felicidade mais gloriosa se dá justamente em finais de ano como o de agora, mês de dezembro já adiantado, quando presencio novos e eternos aprendizes sendo encaminhados para as estradas do mundo, cada qual possuidor de uma fala e de uma escrita não mais fracas ou inoperantes, porém capazes de mover pedras imensas e de abrir picadas onde antes era só e somente só escuridão e incerteza. Tem sido assim a minha vida como professor, dura e densa como um rochedo, mas também leve e fluida como uma esperança.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/fundo-quadro-negro-blue-conselho-1869471/

A espera



Por Germano Xavier



a espera, amor.
a espera,
eu a acomodei
acima das feridas.

precisamente
entre a cavidade esquerda
do peito
e os quilômetros até o encontro.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/malas-de-viagem-trem-black-branco-2525193/

domingo, 3 de dezembro de 2017

Miró, até agora e até quando



Por Germano Xavier


A poesia de Miró pega o último ônibus da cidade grande e roda a madrugada inteira, para e se opõe ao fim da linha (da vida). A poesia de Miró sempre recomeça quando o fim parece ser a última estação. Pega o rumo e quebra esquinas, dobra-se na dor de ser quem se é ou quem se foi. Duplica-se no orgulho da reviravolta, afugenta-se. A poesia de Miró é Muribeca, mas também é o espanto por São Paulo. A moça na rua vendendo seu orgasmo por poucos reais, o homem preso em sua própria solidão, o dia com pressa e a lerdeza de tantos. Miró soca mais forte que Rock Balboa, perde e ganha a luta, vence, chora, morre e renasce. É um trabalho de catador a poesia de Miró, uma palavra dotada da mais pura humanidade, severa e doce ao mesmo tempo. Urge recortar o tempo em que se vive, mas também recorta o passado. Feita de cimento e barro, a poesia de Miró insiste, grita e pede. Nunca implora. Existe. É a voz de um sem-voz-milhares. É a fala do coração ressequido, o lamento do pulso amargo e frio. Miró é lâmina com ferrugem, agulha encontrada no meio do palheiro, ou melhor, do lixão. Até agora a poesia de Miró é o seu próprio caminho, que condena outros e que condensa vários. A poesia de Miró é aquela que corre para dentro da chuva e que quer se molhar nas lágrimas das gentes inteiras, feliz ou triste, mesmo as enfermas. Miró, até agora, é uma dose extra de crença em nós mesmos e na literatura, o próprio jogo da amarelinha, céu e inferno, Rayuela, livro desmembrado em poucos quilos de carne e osso e verdades. Miró caroliniza-se, em seus-também quartos de despejos de andar por aí e além. Prova disso é seu verbo, simpático ao perigo de que muitos medram. A poesia de Miró é até agora um achado e nós, pobres mortais, precisamos conhecê-la. Água turva, manancial assoreado pela ação do tempo-homem, palavra grossa e punitiva. Miró é São Bento do Una, terra natal de meu pai, é Recife, Hellcife, é todo um Brasil que ainda faz de conta que não e que sim. Fotografia úmida de fogo, ardente e firme em sua forma de ânsia. Miró Até Agora é uma obra que reúne os livros de Miró publicados entre 1985 e 2012, e que engloba os seguintes produtos: dizCrição (2012), Quase crônico (2010), Tu tás aonde? (2007), Onde estará Norma? (2006), Pra não dizer que não falei de flúor (2004), Poemas para sentir tesão ou não (2002), Quebra a direita, segue a esquerda e vai em frente (1999), Flagrante deleito (1998), Ilusão de ética (1995), São Paulo é fogo (1987) e Quem descobriu o azul anil? (1985). Miró necessita. Miró é ontem.




* Imagem: http://www.suplementopernambuco.com.br/edicao-impressa/69-mercado-editorial/1658-os-dez-melhores-poemas-de-mir%C3%B3-da-muribeca.html

Uma palma transbordante



Por Germano Xavier



I


é apenas ilusão, amor,
o tempo, a distância
que dizem, os ignorantes,
que nos separam.

tudo, porém,
| inclusive a espera |
é só o caminho.



II


caí
ao descobrir que meu
corpo carregava o mundo
e toda a vontade se escondia
em minha pele de inocência.

caí
e logo escorreguei no desequilíbrio
perverso entre os dons e os grilhões.
E lá fora, dentro da bolha, os homens
patinam entre a impotência
e o desespero.

tropecei nas fissuras humanas,
nos golpes de (in)tolerância
e na violência dos desejos.

adoçar o céu da boca
com o paraíso dos sentidos
é incendiar infernos
para a eternidade
que (ainda) nem começou.



III


já era antiga e íntima,
perfeitamente adaptada e confortável
no pequeno alojamento onde se fixou.

não propunha nem discutia,
apenas apoiava.
sustentava e consolava.

resoluta, há anos era a única coluna
em seu eixo de existir.
aquela dor, anexa ao homem
por desastroso acaso amoroso,
já era desde o túmulo esperado
sua única e possessiva amante.



IV


ele junta as mãos
em sinal de solene
devoção
a devorar os horizontes,

e num relance de
material mistério

prende em seus dedos
e vontades
todo o mar
e o meu centro.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/garota-preocupada-mulher-%C3%A0-espera-413690/

sábado, 2 de dezembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCII)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



Quinta-feira, 24 de agosto de 2017
Círculos de cura em minha casca

Sur ma peau, des cercles qui guérissent


Les cœurs condamnés se hérissent,
Alors que les cris sont comblés, menus et murmurés
Imprégnés d’une joie perverse vide de zèle et d’amour.

L’ombre rachitique sur le ciment
Dévore les jeux d’enfants, à contre-courant des vents
Elle essaierait sans doute, si possible

D’interdire l’impossible.

Ma main conquise par la poésie,
Sur un terrain imprécis et pourtant ferme,
Expulse de mon corps les idées sombres, exemptées de soleil,
Et réclame un sol tout à fait inoffensif.

Ma main m’apprivoise, me griffe la peau comme personne d’autre,
C’est une raclée magistrale, un coup de poing bourré de pluie
{Si au moins elle était semence et foyer pour moi…
….en gros tout ça}

Un morceau de rêve jeté quelque part

Sur le chemin de mes ruisseaux


* Imagem: https://pixabay.com/pt/fundo-brown-c%C3%ADrculo-corte-detalhes-84678/

domingo, 26 de novembro de 2017

Com(junto)



Por Germano Xavier



é a capa
é o núcleo
a aparência
e a essência
o amor, este meu-deus
em mim é
todo o conteúdo
e o excedente.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/trem-bloqueio-idade-ferrovi%C3%A1ria-2974778/

sábado, 25 de novembro de 2017

Indícios de nada para vazios cheios de tempo



Por Germano Xavier



A vida não é mais como antes e pouca coisa sobreviveu daqueles anos, de quando o sonho ainda era algo puramente possível. Uma questão de tempo. O futuro, antes visto como certo e determinado, hoje é apenas uma sombra, uma incerteza cheia de medos.
...

Alterou seu rumo para não perder o chão. Alterou os sonhos, refez cálculos. Não batiam. Talvez a vida não seja uma ciência exata. Talvez a vida apenas não seja. Talvez seja tudo um sonho essa ilusão de dias e noites.
(Se não fosse o amor, sequer se localizaria no Tempo).
...

Mas ele ainda vai ver um filho crescer. (Não faltarão mãos que o agarrem para a canoa da existência-comum. Não faltarão vozes que o coloquem na estrada-mãe, na coluna central da sociedade. No (p)rumo. Com todas as pompas e papos. Com roupa de gala e ocasiões-obrigatórias. E ele, como um cordeirinho livre-e-feliz, deixar-se-á arrastar-se para a feli(z)cidade do dever-cumprido). Talvez seja por isso que as pessoas se casam e têm filhos, para verem outra vida em suas aventuras, para terem um chão suficientemente concreto para pisar e para, talvez, tentar evitar, no outro, os próprios erros, e para, distraído, desviar-se da própria decadência.
...

Curiosamente, ele não perdeu massa-de-sonhar. Ao contrário dos passantes de seu tempo, ele remontou-se em pequenos quadro-de-si feitos inteiramente de porvir(es).
...

O poeta traz no rosto as marcas das grandes-guerras em seu quintal-de-existir, onde as árvores o combatiam, testando sua resistência e eternidade. Onde as tempestades, por vezes longas e insanas, o arrancaram de seu paraíso-quadro para radicá-lo nas nuvens de seu destino-só. Porque poetas são homens grandes-demais para um só. Por isso, encarnam muitos. E por eles todos, sofrem cada dia. E, mais raramente, por eles todos, amam intensamente. E por isso doem mais do que as carnes podem aguentar e, às vezes, decidem matar-se lentamente, afastando-se de seu centro, tão cheios de vidas, de sonhos e de distâncias. Mas não podem. Poetas são vagalumes que não conseguem apagar-se, brilhando até quando deveria simplesmente dormir.
...

Aquela poeta de meus dias, equador de minhas vidas, mais do que todos, embrenhou-se na vida, e, perdendo os pés nas nuvens onde habita, despencou de si, caindo lentamente nas garras de seus dias.
...

... Porque ela(e) sabe que já perdeu-se inteiramente num abismo onde nada poderá salvá-la(o). Aquela ilusão-mor, o Amor.
...

Alguém já te entendeu? Duvido de que alguém te tenha decifrado todo. Nem mesmo tu. Admito que alguns tenham te conhecido (inclusive eu), mas se alguém ousa dizer que te entende, suspeito que é porque não sabe nada de ti. Tu não és lógico. Tampouco cíclico. Nem óbvio. Tu és mistério em expansão. Vento sem fronteiras. O Aleph. Um abismo de sentimentos voláteis e volúveis. Rocha e água. Tudo em ti muda e não muda. Tu és uma revolução. Igualmente sem razões compreensíveis. E nunca sabemos quando terminou. Só sabemos que dói e que dá prazer e que aprisiona e que apaixona e por vezes mata e salva. Isso tudo e o sangue a correr.
...

Quanto a mim, fico a pensar se sabes realmente o que são as palavras que me dizes. Se sabe o que elas significam do lado de cá. Do lado de um coração conquistado para quem qualquer sorriso é motivo para sair voando.
...

Fico imaginando se não sabes que palavras podem construir reinos e destruir impérios de vidas que acreditam nelas. Fico imaginando teus motivos para achar que dizer que me ama é uma boa-ação razoavelmente justificável, dada a minha carência de ti.
...


* Imagem: https://pixabay.com/pt/est%C3%A1dio-linhas-de-assentos-2921657/

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XCI)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quarta-feira, 3 de maio de 2017
Ensaiando destinos


Des destins expérimentaux

Il faut du courage
Pour essayer des destins
Pour succomber au risque
Pour se livrer à la mort
Pour inciter des faiblesses

Voyons le cas de ce pont secondaire
Qui s’effondra durant les premières pluies
Comme celui qui a miné, éliminé
En face de la déchirure insoupçonnée

Du courage, oui
Pour écrire des poèmes
Pour assortir des mots
Pour décider des sens
Pour dévier les discours

Comme la certitude que nous éprouvons
Lorsque tout paraît déjà contaminé
Comme le rude motif de l’amour
Qui ne peut pas se stocker

Du courage, oui
Pour s’incliner vers l’abîme
Pour atteindre la violence
Pour essayer la fureur chimique des trahisons
Pour s’arrêter tout simplement

Et il arrive que ce chaos que l’on recherche
Ne reconnaît qu’un vainqueur : la technique de la vie
E le malheur va interrompre ce qui n’échoue jamais

Comment sera donc cet humain élaboré
Au niveau de ses petites réactions
Comment agira-t-il, celui que nous méconnaissons
Lorsque l’indifférence nue le provoque?


* Imagem: https://pixabay.com/pt/machado-madeira-hack-casos-1748305/

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Visagem



Por Germano Xavier



presa ao mar
como a crista de uma onda,
tão fluida e séria
e tão alva, reaparecestes.

violência e sofrimento me reanimaram.
onde estão os seus mortos?
quem são os seus mortos?

ontem eu sonhava com uma grande cabeça virada
aos ventos, cuja face era toda uma solidão.
mas hoje não.

hoje você veio.
e aqui dentro a areia é quente.

aqui dentro.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/fuma%C3%A7a-cheiro-queimar-adora%C3%A7%C3%A3o-892679/

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Teoria do amor-algum



Por Germano Xavier


para ler ao som de Handel



1 |

em minha saudade, meu bem,
só a tua imagem me consola.
e choro e tremo e brinco

e obrigo o tempo
a te escrever em mim
e te trazer em ondas, em letras, em pixels,
em sonhos que nunca virão.



2 |

você salva o meu dia
do final,
dos finais,
porque escapa ao que é útil,
ao que é certo,
ao que é finito.

você é a minha eternidade
enquanto presente.
você (como o amor e a arte)
não precisa de motivo.



3 |

não é mistério
nem metafísica
(talvez melancolia).

não preciso do
sobrenatural para te amar
(amor arde como dor de dente).

preciso apenas
de um fio de esperança
e um bocado de teimosia.



4 |

e se viver
é descobrir poesia
no (es)correr do tempo,
amar é t(s)er poesia
no curs(o)ar da vida.



PS. Sinto falta de teus olhares sobre o simples. Sobre os rumores das esquinas, os passantes das ruas, os olhos partidos, os medos negados, os choros escondidos que sempre vês. Onde tens andado que não tens tempo de revelar teu mundo do mundo? Sinto falta de teus segredos sobre. Onde estão os teus inéditos olhares? Não pense que é preciso a suprema inspiração (aquela...) para merecer teus espantos de poesia, de encanto bom, de revolta ou dor partilhada com a humanidade. Teu olhar é bom demais para apenas uma direção de... Alargue teus olhares poéticos. Há tanto mar para o teu olhar. Há tanta poesia para tuas palavras. No mundo ainda tens um reino. A descobrir. A conquistar. O mundo todo (o visível e o intangível) ainda é teu. Não desperdice com o que já foi um você que ainda pode ser. Creio que me entende. O mundo e a Poesia te merecem ainda. Ao menos o que ainda não foi perdido. O que ainda não te feriu. O que ainda não perdeste. O que ainda não descobriste. Abra a mesma janela e veja o que nunca viu.

Desculpe-me por. Te.

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte XC)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



Domingo, 12 de março de 2017
Octaedro

Toujours pour Julio Cortázar


Octaèdre


Ce sont huit histoires sur ce que l’on acquiert :

La première nous montre un narrateur ravissant qui dimensionne la vie.
La seconde dévoile l’étreinte entre le cordon insolite et le réel.
Dans la troisième nous interpénétrons le Temps.
La quatrième nous laisse côtoyer les logarithmes.
La cinquième marque le début de notre déroulement.
Dans la sixième nous sommes dominés par une accaparante anxiété.
Arrivés à la septième nous comprenons que nous n’avons rien compris.
La huitième nous permet de devenir un conte.

Et dans toutes ces histoires nous éprouvons la même sensation :
Le rêve est immédiat.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/alho-ervas-cozinhar-alimentos-2810491/

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Alessandra Barcelar e o sempre-é-tempo para a escrita (uma entrevista)



Uma conversa sobre quem se inaugura...



GERMANO XAVIER – O que a literatura significa para você?

ALESSANDRA BARCELAR - Meu contato com a literatura começou muito cedo, numa estante na casa de uma tia do interior, com uns 7 ou 8 anos de idade. Literatura, para mim, quando treino a escrita, é a possibilidade de ser outra pessoa, de ter outras vidas, estar num mundo paralelo. E isso é fascinante. Como leitora, a maior satisfação é constatar o que a literatura pode fazer a um paciente crônico, ou uma criança de comunidade, exercitando meu voluntariado em hospitais e contação de histórias em projetos sociais. Literatura une.


GX – Fale-nos um pouco mais sobre esses processos transformadores vivenciados por você a partir da literatura...

AB – Os dois projetos de leitura não foram premeditados. O primeiro surgiu de um voluntariado que eu estava fazendo, uma espécie de capacitação com pacientes soropositivos. Eu tinha uma inquietação com o ambiente fóbico das redes sociais, queria tirar do que eu lia ou conhecia algo além de uma resenha, queria algo além... Foi então que comecei a pesquisar sobre a Biblioterapia e, daí, passei a conhecer projetos envolvendo leitura em hospitais, já que é o meu ambiente de atuação, e assim começamos a trabalhar com leituras diversas para pacientes crônicos, com internações de longa permanência ou com pessoas de baixa renda e sem acesso à cultura. O resultado é maravilhoso, empatia, envolvimento. Geralmente opto por levar contos, pela rapidez da conclusão da leitura. A contação de história para crianças aconteceu em uma reunião social da rede SENAC juntamente com a prefeitura regional e ONGs... me encantei com um projeto de leitura e distribuição de livros para crianças que vivem em comunidades. Com certeza, se não fosse essa inquietude, eu não poderia estar vivenciando isso.


GX – Em sua jornada como leitora e difusora de textos literários, qual a experiência de leitura que mais te marcou? E por quê?

AB - É difícil falar de uma obra apenas, pois muitas me foram importantes em vários momentos. Mas a que me vem à mente devido a dificuldade que tive à época, já que achava um livro difícil e que foi muito importante para mim, foi Grande Sertões Veredas, pela obra, pela história, pelo dilema de Riobaldo, pela atração, pela religiosidade, pela forma de como foi contada aquela história, sem dúvida um livro para vida toda.


GX – Você, recentemente, tem conseguido adentrar espaços antes tidos como mais distantes. Como você enxerga a incursão de textos seus em algumas antologias e em outros tipos de publicações especializadas em difundir literatura? O que muda a partir de tais eventos?

AB - No meu caso, eu não via como espaços mais distantes e sim impossíveis. Sempre tive medo de colocar no papel qualquer pensamento, mesmo sendo uma leitora responsável. As incursões foram uma surpresa para mim, bem gratificante, confesso. O que muda são as possibilidades que aumentam, novos contatos, muitos trabalhos que antes não tinha noção que existiam, obras que posso trabalhar com os clubes de leituras, são mudanças que em um primeiro momento não pensei que aconteceriam.


GX – Vamos falar de predileções: Poesia ou prosa? E por quê?

AB - Prosa! Eu acredito que não tenho intimidade com a poesia, apesar de ler vários poetas como Wislawa Szymborska. E outros. Na contemporaneidade, eu não salto os olhos para poemas que nada mais são que contos pulando linha... não sei também se é algum preconceito meu, mas acabo preferindo textos em prosa. Mesmo sabendo que existe muita coisa boa na poesia. É mais uma questão de preferência mesmo, de contato com a palavra.


* Imagem: Acervo pessoal de Alessandra Barcelar.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Mariana Basílio, poeta de olhos queimados (uma entrevista)


Uma conversa sobre o livro Sombras & Luzes (Penalux, 2016)



GX – Quem é a Mariana Basílio de Sombras & Luzes?

MB – É uma poeta que aceitou sua condição. No primeiro livro, Nepente, eu ainda estava procurando o que seria o elemento propulsor que havia me movido nos anos anteriores – versar o inominável, dialogar com os detalhes, escavar os mistérios – então tive um insight. Publiquei o primeiro livro meses depois, aos 25 anos, procurando trajar este meu novo trajeto.

Com o próximo livro, Sombras & luzes, foi completamente diferente. Já não tentava me encontrar ou me adaptar, já me compreendia na realidade a que me propus. Projetei o livro de maneira mais madura, e passei a ter uma rotina diária bem mais rigorosa em relação às leituras e escrita – como consequência, passei a escrever com mais liberdade e confiança.


GX – Teus poemas são como buquês repletos de rosas densas, cujos espinhos do caule perfuram até o mais profundo lugar de nossa alma (ou consciência). De onde vem toda essa força?

MB – Fernando Pessoa dizia: “Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu”. Está tudo na essência do sentir, sentir que o interior não é mais do que o exterior, nada nos salvará da morte, que então a poesia (ou o amor, como versava Neruda), nos salve da vida. Já Herberto Helder, num dos poemas que mais aprecio, parece me denunciar: “Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer / com os olhos queimados pelo poder da lua”. Os olhos queimados – olhos de poeta, da criatura que não sossega sem cavar as profundezas. Talvez o que eu seja cintile no bruto das palavras.


GX – No fim do livro, você esboça uma rota de construção de seu livro. Todavia, eu reforço a curiosidade sobre tal processo e lhe pergunto novamente, na expectativa de arrancar de ti algum “segredo” não revelado em suas considerações finais. Então, Mariana, como se deu a feitura do seu Sombras & luzes? Há semelhanças e/ou diferenças nele para com o seu Nepente?

MB – Me sinto nesse contexto como Júlio Cortázar: pareço mesmo ter nascido para não aceitar as coisas tal como me são dadas. Faço e desfaço, desfaço e faço. É sempre um tecer melodramático viver em minhas decisões. Fiquei realmente em dúvida sobre expor as tais observações gerais, o tal roteiro. Mas como o livro acabou se tornando um projeto de quase 300 páginas, acabei me decidindo por publicá-las em conjunto.

Se há semelhanças nos livros? Bem, talvez estejam na temática mais abrangente que ainda me recobre, envolvendo temas como vida e morte, humanidade e natureza, e ainda, alguns autores que são minhas influências em ambos os livros. Mas, sem dúvida, vejo e sinto muito mais diferenças do que semelhanças, já sou outra pessoa e poeta nessa época do Sombras & Luzes.

Tudo mudou, simplesmente.


GX – Mariana, existe alguma pergunta realmente necessária a se fazer a uma poeta como você? Alguém já a fez? Se não, qual seria?

MB – Não sei, talvez haja inúmeras, talvez não haja nenhuma. Não sei o que significa direito “uma poeta como você”. Mas vou tentar levar isso para um campo mais abrangente e traduzirei um pouco como me vejo no presente da poesia brasileira – deslocada das tendências mais contemporâneas. O que faço é bem particular e, por isso mesmo, um movimento muito solitário. Mas não me incomodo com isso, a minha única preocupação é estar focada e trabalhar muitíssimo no invisível dos invisíveis – perfurando o rumo das palavras em que realmente me encontro.


GX – Se todo escritor é um país estrangeiro, como diz um de teus versos, qual seria o teu lugar neste mundo, Mariana? E qual seria o lugar da poesia que teces?

MB – Meu lugar é o lugar universal, o lugar do vazio que recobre o todo (e talvez eu o encontre quando escrevo) – aqui sou uma inocência socialista abaixando as fronteiras dos países, unificando o que amo na humanidade: o total de nós.

Só me vejo no “eu” porque me propago em “nós”. Por isso “todo escritor é um país estrangeiro” – além de outros preâmbulos do verso.


GX – O que há para ser descoberto, ainda, na vida?

MBO que há para não ser descoberto? Só estou no começo, mesmo que eu morra amanhã, saberei, ainda é vago, ao mesmo tempo que intensa, a lâmina com que lapido minha voz e construo, exausta, as minhas espirais. Não sei precisar (e adoro isso). Mas como diz Mia Couto (e assumo em prévia do futuro): “grandes palavras escondem grandes enganos”.

Sigamos então, ainda mais humanos do que no instante que já se findou.






*Mariana Basílio (Bauru, 1989) é uma escritora, poeta e tradutora paulista. Licenciada em Pedagogia pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), campus de Bauru (2012). Mestre em Educação pela Unesp, campus de Rio Claro (2015). Autora dos livros de poesia Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016). Recebeu em outubro de 2017 o prêmio ProAC de criação literária do Estado de São Paulo, contemplando a publicação de sua terceira obra poética, Tríptico Vital (prelo, 2018). Escreve atualmente seus três próximos livros: Megalômana (poesia), Kairós (poesia) e A Revolução das Rosas (romance). É colaboradora dos portais Zonadapalavra e Liberoamérica. Possui poemas, entrevistas, resenhas e traduções publicados em diversas revistas do Brasil e de Portugal, entre elas: Alagunas, Diversos Afins, Escamandro, Efémera, Garupa, Germina, InComunidade, Inefável, Limbo, Mallarmargens, Oceânica, Odara, O Garibaldi, O Equador das Coisas, Raimundo e Vida Secreta. Site para contato: www.marianabasilio.com.br

domingo, 5 de novembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXIX)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



Sábado, 15 de abril de 2017
Isso


Ça


Je creuse
Jusqu’à avoir mal aux yeux

J’enlève des écailles du serpent d’antan
Sous l’inexistante vipère

Ca, c’est une plaie :
Le désir, le vouloir, l’envie

Vouloir envahir les mystères


* Imagem: https://pixabay.com/pt/l%C3%A2mpada-neblina-noite-m%C3%ADstico-2903830/

Profundo



Por Germano Xavier



1 |

e enterrado, tão profundo, 
que quase nada
consegue alcançá-lo
está ele; o amor.

talvez a música
(única capaz de captar sons de eternidades)
ou aquela saudade
de doer os ossos,
de doer os olhos
e adoecer os passos todos.

sim, talvez apenas isso
e um bocado de sofrimento,
sejam as raras coisas
capazes de me comunicar
do amor.



 2 |

e só porque calamos
não significa que
perdemos.

às vezes, amor,
apenas acenamos
para a serenidade

ou assentimos
com o destino.



3|

há estrelas, amor,
e há dias e noites
envoltos em altas nuvens.

há muitos equadores
a nos nortear
vontades e febres.

e aquela pomba
que talvez seja
alguma espécie
de esperança
bem pode nos ceder alguma
asa
ou delicadeza.

por isso, amor,
sufocamos a morte
dentro de nós
para vermos nascer
alguma paz
ou brotos de poesia.


4|

não sei se era escárnio
ou amor condensado
no rosto do belo ancião.

mas era, seguramente,
rastros em rotas
e espirais de anos
e fugas e perdas
num carrossel incontrolável
de incógnitas.
vida que girou
e girou
além de suas 
mãos cadentes.


* Imagem:https://pixabay.com/pt/parecia-pavimento-paisagem-urbana-2823949/

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXVIII)



Por Germano Xavier


"tradução livre"



As noites


Les nuits

J’aurais préféré
Que les nuits n’existent pas,
[La journée m’anesthésie
Elle atténue le vide de tes pas…]

La clarté m’engourdit :
Les heures qui passent en volant
Le travail mécanique
Qui découle du fait d’être vivant…

La journée m’apprivoise,

Elle aveugle mes douleurs
Par la grandeur de la vie, immense
Et de la mort, si nues, toutes les deux.

Les nuits me renversent
Car elles taisent le cortège
Et je n’entends que le cri effrayant
De la vie qui coule.

Toutes les nuits
Quoiqu’absente et dense, tu surgis
Pendant que mon amour
Est vêtu de nostalgie.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/flores-acampamento-p%C3%B4r-do-sol-2805074/

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Mulher-rio



Por Germano Xavier

para Carol Piva, em ani-versos


estio | equador
quente de tão-quente
verão inteiro



Carolina Piva é o nome dela. Toda uma estação. Ela. Desde que a sei que sou mais. Ela tem isso. Dentro. Cria e difunde. Ama. Este espaço é mais com ela. Por ela, também. Rio que corre na noite. Sereno. Misterioso, de tão profundo. 

Feliz aniversário, C..
Sigamos!


* https://pixabay.com/pt/gotejamento-molhado-gota-de-%C3%A1gua-2806027/

domingo, 15 de outubro de 2017

Eu ainda te falarei do amor



Por Germano Xavier



aqueles mares, amor,
onde quase nos salvamos,
eram reais demais para
pássaros,
longe demais da terra,
perto demais do absurdo.

...

parei de ponderar
o imponderável.
agora, simplesmente,
paro o mundo
e mando descer
o intruso.

...

já eram verdes antes,
mas não eram musgo
(ainda).
aqueles felinos olhos
(chamas, eclipses, auroras)
viraram musgo
ao devorar
mil mundos.

...

venha aqui, amor.
sente aqui comigo,
observe aquela senhora subindo a rua.
percebe o quanto ela hesita?
talvez pense que não faz diferença
um passo a mais ou a menos.

talvez pense que o peso
em sua alma não suporte mais um metro,
não aguente mais uma casa bonita
que nunca será sua
ou mais um senhor distinto
que não a enxerga.

talvez, amor
(e não deixe de considerar as sombras),
aquela mulher que já esqueceu
de que é uma mulher
seja agora e apenas
uma pedra levada pelas marés,
ora coberta de água
ora queimada de sol.

mas é fato, ainda, amor,
que aquela mulher
é parte de nossa morte.
a cada não-passo seu
morre um pouco
de toda a humanidade.

...

você vê, amor?
jamais foi escrita
a nossa história
nos calendários
obrigatórios
dos dias contados.

a história,
nós a fizemos carne
e a comemos em horas
fatais, em dias infindos,

na geografia acidentada dos corpos.
no reino imperfeito das palavras,
perfuramos a vida
em busca da penumbra
onde o tempo é amor
e o silêncio é pacto.

amanhã, noite clara,
cheia de miúdas belezas:
o dia que mais te amei.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/praia-bancadas-bicicleta-moto-1835036/

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Tapete mágico e outros poemas



Por Germano Xavier


1 | Tapete mágico


o que nos falta, meu bem,
é um relógio quebrado,
um mundo mais simples
e um arsenal de eternidades,

ou talvez
apenas precisemos
de um tapete mágico
e um bocado de inocência.


2 | Morte


violência, silêncio,
assombro ou selvageria.

nada encobre a beleza
(e o horror)
de que tudo terá fim.


a morte
e sua inquestionável divindade,
não a desconhecemos.
por isso,
ardemos sem paz.

mas os poetas,
em algum ponto
entre a palavra
e o embevecimento,
esquecem de morrer.


3 | Resistência


mas se amamos
é porque aprendemos
a sepultar as dores

nas encostas dos dias,
nas vielas do tempo,

a deixar que o vento
reconstrua a estrada
acima dos corpos.


4 | A priori


amo você a priori
(a despeito de cada espinho de minha alma-cacto),
amo você enquanto palavra,
enquanto mulher,
enquanto líquido.

sobretudo amo você enquanto
penumbra
(matéria abstrata de nós).

você enquanto ausência é pedra e mar.


5 | Lado


se encantado seguirei,
como na música,
ao lado teu,

na poesia
seguiremos
lado a lado,

porque o lado, amor
(também),
pode ser dentro.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/tapete-macro-detalhe-fio-2350549/

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXVII)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



A morte soprada

Le souffle de la mort


Tu surgis loin de moi, impénétrable
Indéchiffrable perfection.

Telle une déesse qui se cache,
Intangible, celle qui déchire les attentes.

C’est alors que je te livre mes délires,
Je me confie à toi, vulnérable
Je t’impose mes prières
Comme on impose l’amour et l’espérance.

Et toi, comme les êtres célestes,
Souveraine,
Tu jouis du droit de souffler sur moi
(Encore une fois)

Vers l’existence en forme de poussière.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/shell-m%C3%A3o-natureza-morta-2546312/

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Não que o amor (não) seja eterno



Por Germano Xavier



A |

depois de tudo, amor meu,
nada se perdeu além daquilo
que nunca tivemos.

a paz a nos olhar por sobre o ombro,
a dúvida a nos fustigar a pele,
testemunhas de um partir
sem fim.

somos os animais
extintos antes do tempo,

feridos pelos dias
mortos de incertezas.



B |

nunca soubemos, amor,
o que era o monstro
por trás das palavras.

por trás do por trás,
havia apenas o papel
e um vazio esquisito.



C |

havia uma pétala de zombaria
em minha mão esquerda,
daquelas que afrontam o mundo
com a sua indiferente beleza.

e logo me dei conta...
ela era a única razão
de todo o meu desencanto.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/emo%C3%A7%C3%B5es-dor-luto-triste-2691898/

domingo, 8 de outubro de 2017

Nivaldo Tenório e as camadas do conto


Por Germano Xavier



Em seu terceiro livro de contos, intitulado de NÍNGUEM DETÉM A NOITE (Confraria do Vento, 2017), o garanhuense Nivaldo Tenório, autor do bem cotado DIAS DE FEBRE NA CABEÇA (2012), faz aquilo que em seu livro anterior já havia, diria, iniciado, como quem repercute uma marca pessoal e a expande: a fabricação ou composição do conto em camadas. Da mesma forma (ou com a mesma fórmula), as narrativas são curtas e circundam temas cotidianos, com toques enxutos de realidade fantástica, quase que imperceptíveis. A morte entra como pano de fundo central e a noite engloba boa parcela de seu simbolismo. Doenças, fragilidades de corpo e alma, fraquezas de conduta, amarguras e dissabores formam o arco-íris pintado em tons de cinza do livro do escritor pernambucano. Como em DIAS DE FEBRE NA CABEÇA, tudo aparenta estar em seu lugar. Mas não se engane, leitor. Ao menor sinal, perdemo-nos nos finais sem fim dos contos de Tenório. Fragmentados, somos atraídos por um imã-maior como cacos e, só assim, seguimos adiante na leitura. Uma pequenina coletânea de abismos é o que Tenório nos oferta neste livro. Os contos, formulados em pequenas cadências, com diálogos internos ou não, formam uma geometria avulsa, completamente organizada, mas indefinida a partir de sua respectiva angulação final. O olhar de Tenório sobre o básico e sobre o essencial da vida é o de quem sonda o imprevisível com respeito e arguta paciência. O autor desvia o leitor do caminho comum à medida que nos informa sobre outros mil nadas por demais preciosos. Cada mínima camada de suas fabulações é uma nova dúvida instaurada, um novo segredo camuflado, uma nova observação momentânea que se realiza dentro das miudezas e das minúcias das narrativas. Algumas imagens podem turvar o campo de visão do leitor mais desatento, como uma tartaruga que morre durante um passeio familiar em plena ditadura. É um livro triste, denso, duro, cru, cruel, que não tem pena de seu interlocutor. Assim se formou a verve de Nivaldo Tenório, sabedor astuto de que é na vida, dentro dela propriamente dita, que nos criamos feito bichos, que nos desenvolvemos feito astros, dentro dela que aprendemos a desaprender submissões e a desatar os nossos grilhões. Em Tenório há sempre um suicídio prestes a acontecer, tão provável que quase não mais assusta, pois é ele tão próximo que tende a ser a única certa defesa com a qual suas personagens podem contar quando necessário. A mensagem é a de fim de percurso, a de que o homem (todos nós, inclusive eu e você, amigo leitor deste blog) não tem mais para onde correr. Não há mais força nas pernas nem picadas a abrir nos matagais de pedra das cidades. A luz do dia ofuscou nossa derradeira esperança e ninguém, absolutamente ninguém, parece ser ágil o suficiente para deter a noite eterna das civilizações.


* Imagem: Acervo do autor

sábado, 7 de outubro de 2017

Adiante nem é um porém



Por Germano Xavier


não tem relógio o meu tempo.
deixei para trás dois ou mais amores,
um silêncio autoral e uma dúzia de abismos.
comigo, agora, só a paz noticiada
em meu texto crítico. o tempo, sem marcas,

| sem marcos |
revelou-se, via de regra, um humano senso.
todos perdemos, no fim, o tempo-núcleo,
aquele aberto contra o rosto na invenção dos ventos.

frágil colono é meu coração sem posses,
vencido tantas e tantas vezes pela beleza do mundo.
violentado, vezes inoperante, mas atestador
do exigido pelas horas, de minha insistência,
de minha não-desistência - ocupado órgão em amar
| e amar |.

você, na penumbra, não temas a noite dos dias.
havendo esse cuidado a vida se engenha em retornos

| eternos retornos |.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/mar-navio-%C3%A0-vela-oceano-p%C3%B4r-do-sol-1101168/

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Os contos febris de Nivaldo Tenório



Por Germano Xavier



Secos, os contos de Nivaldo Tenório em DIAS DE FEBRE NA CABEÇA. Não secos por não possuírem um osso nutritivo medular, mas secos por não revelarem nada mais que o essencial. Ou seja, nada. O cotidiano na obra, também áspero, parece o centro de todas as maldições humanas que abarcam os personagens. Sufoco, evasão, fuga, desterro e suicídio percorrem os cenários de suas narrativas curtas. A cidade aparece na trama e nela quase nada aparenta estar fora do lugar. Aparenta, eu disse. No fundo, tudo está muito deslocado, mesmo tudo estando em seu devido lugar. E o leitor, temeroso, também muda de lugar simplesmente por achar estranho o fato de ter de ficar parado, estanque. O leitor, por vezes imóvel, perde o lugar, vira personagem, anda e é chamado pelo narrador, é barrado pelo personagem de um determinado conto, fica, sai, corre, foge, perde-se. Uma violência quase delicada se instala nas páginas do livro desse escritor de Garanhuns, integrante de uma leva de narradores do interior pernambucano que até hoje marca o solo próprio de suas letras literárias. Nivaldo Tenório escreve parte da história universal do abismo, do abisso, do nada em nós. Em pouco mais de 100 páginas, detona qualquer ideia mais elaborada de valia acerca da caminhada humana sobre a Terra. Seus tipos são desenganados, desprestigiados, feitos de glórias vãs ou destituídos de brilho próprio. Têm muita amargura as personas de Tenório. Nada parece possuir um propósito, como se a qualquer movimento fosse dado um destino de ser fim, de ser término um dia, de acabar. O patético é a forma comum. O dia é trivial e é sempre e apenas um outro instante em relação ao momento anterior. Nada é novo e, por isso, o homem é ninguém. O homem é ele mesmo. O homem em DIAS DE FEBRE NA CABEÇA não conseguiu se multiplicar nem se transformou em outros. O homem é ele próprio e, devido a este fato, não consegue se aceitar por completo. Em tudo há uma espécie de repulsa, de vômito, de escarro. A cabeça ferve ao ler o livro de Tenório. Os dias fervem dentro dele. A febre é deveras febril. O livro, lançado pela Confraria do Vento em 2014, tem orelha escrita por Raimundo Carrero.





* Imagem: https://pixabay.com/pt/xarope-para-a-tosse-medicina-colher-2557629/

A sutil diferença



Por Germano Xavier



não é importante o gole dos brilhos
nem a maquinaria frígida dos alumínios.
não é importante a qualidade do branco pó.
só o que basta está no que cabe em uma tala
de cheiros e cores e.

com o sabor provável
vem a febre certa da cura, fim sutil
feito de esquecimentos e acreditares

– o gosto
avança e junta nossa força
numa coragem de ânimos.

é a gota,
mínima em sua transformação, na água
a vida, o pulso, o movimento.

é o naco,
silêncio imorredouro
das terras, o real domínio das precisões,
tostão dos muitos que se querem em prova
ou que existem ou que revolvem.


* Imagem: https://pixabay.com/pt/farm%C3%A1cia-farmac%C3%AAutico-2066065/

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Quando, o mar



Por Germano Xavier


#1

quando me engole em suas infinitas centelhas de água,

refaço-me das anteriores mortes,
como a renascer para o fogo.

quando me esconde em seus gigantes braços de ondas,
convenço-me do próximo passo,
do próximo mergulho e
do próximo voo.

e quando me aquece em seu leito de mistérios,
calculo que o enlace seja maior do que o espaço
entre mim e a sua falta.

quando me cobre,
quando me devora,
quando me depura
você, meu amor, o mar!



#2

você, o mar, o mar, o grande mar.
o ângulo quebrado da água nas dobras das rochas,
a força que inunda o lugar do entendimento. você, o mar, o mar,
|o grande mar|
a voz sem dinâmica, torta e cheia de empolgação,
que considera e que convida, que expressa e que anseia.
o brado que reluta na saudade do instante, a luta
que opera e chega e chama e

o mar, você, o tão vasto mar, o maior-mar,
outro-ser que desarticula a própria margem
de não ser e ser

aquilo!
aquilo exibido como alívio ou a-mar...



* Imagem:https://www.deviantart.com/art/healing-692672537

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXVI)



Por Germano Xavier


"tradução livre"


Quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Sobre brutos monstros e pequenos corpos



Sur des monstres bruts et des petits corps


Serait-ce possible une solitude plus grande que moi?



Ici dans cette prison
(Certains l’appellent Vie, tout court)
Là où les vents se heurtent à l’entrée
Empêchés d’apporter les graines,
Aurait-il existé une fente
Où une réponse se pourrait glisser?
Existerait-il une fissure oubliée
Par où la paix puisse rouler?

Ici dans cette prison alarmante
Pleine de monstres brutaux,
Il y a des petits corps interrompus
Condamnés à se souvenir.

Là où je suis envahi par des silencieuses catastrophes,
Enchainées à mes doigts par des alliances éternelles,
Je suis la cible claire d’offensives sordides,
De refus insoupçonnables
Qui m’empêchent l’existence même.

Alors, je m’annule et j’étouffe.

Mes pieds ne peuvent plus que marcher
N’aboutissant nulle part
Même pas à la porte des envies
Seul un être rampant survit en moi.

Ici, dans cette prison
(Quelques un la prennent pour un Foyer)
La peur, la douleur et la nausée
Peuplent de longes mémoires
(Seule la torpeur est libératrice).

/oublier c’est ne pas vivre/

Ici, respirer est offensif et honteux,
Tout mon corps n’est que nudité
Le spasme et l’étonnement qui implorent une fin.

(Ma paix n’est qu’imprudence et le vide absolu)

Ici, ou ailleurs, je me souviens bien
Ma chair déchirée par un silence criminel
Là où les cris
Ne dépassent jamais les murs.

En prison,
Pas d’ouïlles
Pas non plus de secours:

Juste de l’ironie.

Contre la paroi froide,
Mon corps, vaincu, supplie:

«Va-t-en, mon âme!
Cache-toi entre les nuages,
Pour pas que tu me vois tomber…»

Ici, dans cette prison
(Certains l’appellent Vie, tout court)
Là ou je prie pour qu’on me réponde,
Je fouille des sens,
Les divinités m’observent –
Sadiques ou impuissantes?

Alors…
Je reste dans mon coin et je résiste
Peut-être que je lutte et je cesse d’exister
Au delà de ma douleur…

Ici dans cette prison
La vie existerait toujours (?)
Ainsi que l’amour (?)


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Sunset-Cloud-691188831

Em partir os passos ou algum lugar melhor



Por Germano Xavier



escrevemos
o teatro mágico dos encontros
nas penumbras sagradas do porvir,

estocamos dizeres e sentires
nas mínimas afirmações diárias sem-tempo
e nas inocentes esperas sem-rosto,
que instiga e nos põe em errâncias.
|flertamos com um claro enigma|

fecho os olhos e imagino porque tudo o que é futuro
não dói.

mas se fosse meu
este meu sol,
repleto de você,
não queimariam
de frio
minhas entranhas
ao meio dia.


* https://www.deviantart.com/art/leaving-a-home-635611322

domingo, 17 de setembro de 2017

A Grande Praça do olhar (ou Morte na Grote Markt)



Por Germano Xavier


em Bruxelas
enquanto muitos passavam
enquanto muitos passeavam
e viam e riam e bebiam e viviam
eu morri no olhar de uma pedinte

na Grand-Place
em plena abertura solar do meio-dia
eu morri dentro dos olhos de uma mulher
que não me conhecia | mas que me conhecia

| bem mais do que me conheço |

em uma de suas mãos uma pequenina lata
em seu corpo um colorido tecido-cobertor
em sua voz um descuido milenar da humanidade
em seu chegar uma dor comum sentida

em Brussels
quase às vistas do Manneken Pis
bem no meio da praça mais bonita do mundo
no centro dos olhos daquela mulher
eu morri uma de minhas tantas mortes | guturais

e espantosamente silenciosas


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Bruxelas-213335121

sábado, 16 de setembro de 2017

O sol estrangeiro



Por Germano Xavier


antes de pensar o golpe
dar ao pensamento a lâmina
cega e áspera e torta
para que se afunde no corpo
e ria sons de sangue além

de toda a dimensão em despedida
encapo a voz inteirausente e viva
sem aquele século de dor antiga

em torno ainda na obra o fenômeno
a autoria do levante e da errância
na palavra que soca a morte a morte a morte

contra qual vivo presente
se erguerá a causa-arte?

nas ideias que me saltam
ou na cova rasa já pretensa
encaminho minha terra mais plural
em ensaios falsos do que sou


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Double-Impossibilitye-583281232

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Corrida



Por Germano Xavier


Saiu eufórica. Já havia alguns dias que não corria. Adorava sentir a endorfina inundar o corpo, a alma, a esperança. Porque talvez houvesse uma. E hoje, mais do que em qualquer outro dia, ela precisava correr para encontrar. Se não a esperança, ao menos uma porção de imensidão, de possibilidades ou apenas de endorfina. Começou a correr devagar e logo o corpo estava lá. Naquele lugar onde podia voar. Com ele. Ele sempre vinha fazer companhia quando corria. Ali em sua cabeça ele era só dela. Podia imaginá-lo deitado na cama, olhando para o teto com os seus belos olhos verde-musgo, olhando para o teto, contando histórias com a mão no rosto. Ali, em sua corrida, ele respondia a todas as perguntas e em intervalos pequenos olhava para ela, de lado, rapidamente, e todo o mundo parecia se concentrar em sua voz. Ali, em sua mente e em sua corrida, ele era mais do que uma memória, era o voo. A memória era combustível. Para os músculos, para os olhos, para o coração. Corpo inteiro movido, movendo-se. O horizonte se transformava e a cada passo dado o mundo parecia girar completamente. O chão se movia. O parque rodopiava como a estar sob um eixo imaginário. A respiração era simples e forte. Havia naquela corrida um momento de frenesi. Saiu eufórica. Como ontem. Adorava sentir a endorfina invadir o corpo, a alma, a esperança. Porque, convenhamos, talvez houvesse uma. E hoje, mais do que em qualquer outro dia, ela precisava correr para encontrar, para chegar perto, para beirar. Se não a esperança, ao menos uma porção de imensidão, de possibilidades, de perigo ou apenas de endorfina. Começou a correr devagar e logo o corpo estava lá, aceso. Naquele lugar onde podia voar, como quando assim desejava. Com ele, voar. Ele sempre vinha fazer companhia quando corria. Era deveras um mistério. Ali em sua cabeça ele era só dela. Ela o possuía. Podia imaginá-lo deitado na cama, olhando para o teto com os seus belos olhos verde-musgo, olhando para o teto, perdido em si, contando histórias com a mão no rosto daquele jeito que sempre fazia. Ali, em sua corrida matinal, ele respondia a todas as perguntas e em intervalos pequenos olhava para ela, de lado, rapidamente e efusivamente... E todo o mundo parecia se concentrar em sua voz, em seus suspiros, em seus rumores. Ali, em sua mente e em sua corrida, ele era mais do que uma memória, era a certeza do voo. Mas também, e principalmente, da aterrissagem.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Crossing-Borders-435642079

A despeito do Tempo



Por Germano Xavier


é feita de tempo a tonelada, o peso encardido
no metal das coisas, a bigorna em badalos que me esmaga o crânio
em marteladas de agonia, de dor.

e essa mão que me espreme ou me consola,
essa mão que me atinge como mão de pugilista,
tão infinitamente neutra quanto a chuva ou o sol,
é a sentença que encerra a todos
debaixo do mesmo céu, do mesmo templo,
o tempo: guardião da sanidade.

por tanto chão, por tanto obstáculo,
faço que respiro a despeito do ar
que te assedia ou te engole
num abraço inevitável .

invento que respiro e que sou
o próprio ar, mesmo que fraco,
mesmo que incômodo.

ou mesmo que pouco.

(e a inspiração será a calma que nos salva o rumo)
porque respirar (ainda)
é viver.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Tears-of-time-694952051

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXXV)



Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Mirada


Regard


Je ne sais pas, au juste

En quoi je convertis

Ces regards imaginatifs

Que je pose sur toi.


Toute la poésie que l’on possède est incroyable

Insuffisante pour décrire ces regards qui ne se sont jamais croisés,

Sauf dans les rêves.


Je pense notamment au regard de Janus vers la baleine,

A la baleine qui regardait Janus,

Comme dans un film de Béla Tarr.


Voilà tout dont je suis capable

Et, comme toujours

Ma mémoire me poignarde.


* Imagem: https://www.deviantart.com/art/Sadness-of-the-rail-677195295

sábado, 2 de setembro de 2017

Língua e gêneros textuais: conceitos fundamentais


Por Germano Xavier


De acordo com o filósofo e pensador russo Bakhtin (1981), a língua é um objeto de estudo concreto, resultante de uma interação social entre pessoas que se encontram em uma situação de comunicação. Segundo o autor:

A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua. (BAKHTIN,1981,p.123)

Sendo assim, a reflexão desse autor acerca do objeto de estudo língua nos direciona a perceber que a língua não é algo sem forma, pelo contrário, ela deve ser vista como algo palpável que se consagra na palavra pronunciada por alguém (locutor) em direção à outra pessoa, neste caso, o ouvinte. Toda essa relação estabelecida entre o falante e o ouvinte resulta consequentemente numa situação de interação entre as partes envolvidas no processo de comunicação, levando sempre em conta o contexto social, histórico e cultural em que os membros estão envolvidos.

Ao lançarmos um olhar para as práticas escolares de acordo com a visão sociointeracionista da linguagem, elegemos o ensino da língua indiferente ao tradicional, que se restringia a estudá-la como representação do pensamento. A respeito dessa visão, Bakhtin (2002) explica que, para seus adeptos, a expressão linguística é formada de alguma maneira no psiquismo humano e é exteriorizada objetivamente com a ajuda de um código de signos exteriores, como se fosse uma tradução: “O exterior constitui apenas a material passivo do que está no interior” (p. 112). Portanto, as pessoas que não conseguiam se expressar eram rotuladas como seres não-pensantes.

Uma outra concepção de língua é a do estruturalista Ferdinand de Saussure (1977), para o qual a linguística deveria se ocupar dos elementos que são “internos” à língua e deixar de lado tudo o que lhe fosse “externo”. “Nossa definição da língua supõe que eliminemos dela tudo o que lhe seja estranho ao organismo, ao seu sistema, numa palavra: tudo quanto se designa pelo termo ‘Linguística externa’” (p. 29). Dessa maneira, a língua era vista como um sistema independente de fatores exteriores, sendo que eles não influenciam em nada o seu sistema interno, aonde os signos linguísticos mantinham uma relação de ser o que o outro não era e assim o que se levava em conta era apenas o que estava presente na estrutura, língua enquanto estrutura.

Em meados do ano de 1960 surge um outro ponto de vista acerca do objeto de investigação Língua: o paradigma funcionalista, cujo maior defensor foi o respeitável teórico Roman Jakobson (1982), para o qual a língua é compreendida como um código, utilizado para transmitir uma mensagem de um emissor para um receptor. Esse código, por sua vez, deve ser usado de maneira semelhante, preestabelecida e convencionada por todos os falantes envolvidos na comunicação para que esta realmente se efetive com sucesso. Com o avanço em seus estudos este teórico acrescentou mais dois elementos ao processo comunicativo, neste caso, o contexto (ou referente) e o contato (ou canal). Assim, a comunicação aconteceria através do seguinte esquema tático: a existência de um emissor trazendo em mente uma mensagem com o intuito de transmiti-la a um possível receptor, como forma de concretizar seu desejo ele a transforma em código e a remete para o receptor utilizando um canal (meio físico dotado de ondas sonoras), e por meio do código cabe ao outro interpretar a mensagem recebida.

Inspirando-se no modelo tradicional sobre a linguagem de Karl Buhler (1990), onde a comunicação servia apenas a três funções: a expressiva, a informativa e a estética, Roman Jakobson (1982) faz algumas alterações referentes à mudança na nomenclatura das três funções já pré-existentes, as quais passariam a ser chamadas de referencial, emotiva e conativa. Ele também acrescentou outras três funções, neste caso, a fática, a metalinguística e a poética.

Os textos com função referencial (também conhecida como informativa, representativa, denotativa ou cognitiva) são aqueles que colocam em evidência o referente (ou contexto) e transmite uma informação objetiva sobre a realidade. Já a função emotiva ou expressiva refere-se à manifestação do ponto de vista do remetente, seus sentimentos, suas emoções a respeito dos fatos expostos no texto. Segundo Barros (2004), são vários os indicadores usados para chegar a essa função, dentre eles estão: o uso de interjeições, exclamações, reticências etc, uso de verbos na 1ª pessoa, com o objetivo de enfatizar uma subjetividade e consequentemente criar uma relação de proximidade entre os sujeitos envolvidos na comunicação.

De acordo com Jakobson (1982, p.125), a função conativa ou apelativa “encontra sua expressão gramatical mais pura no vocativo e no imperativo”. Essa é uma linguagem bastante utilizada nos discursos, sermões e propagandas que se dirigem diretamente ao consumidor procurando persuadi-lo e, por isso, ocorre a interação entre remetente e destinatário.

A função fática tem como palavra chave o canal ou contato. Segundo Jakobson (1982), essa função tem por finalidade estabelecer, prolongar ou interromper a comunicação com a intenção de verificar se o canal está funcionando corretamente. De acordo com Barros (2004), existem algumas expressões linguísticas que fazemos o uso para que possamos chegar aos objetivos citados acima, os quais são: unh e hã (elementos prosódicos de pontuação da fala usados para manter o contato entre os participantes da comunicação), olá! tudo bem? como vai? tchau, até logo, bom dia (fórmulas prontas usadas para começar ou encerrar a comunicação) e você está escutando? (para garantir que haja realmente o contato).

A função metalinguística, por sua vez, tem como foco o código. As pessoas envolvidas em uma situação de comunicação desejam saber se estão utilizando o mesmo código. Para exemplificar esse determinado tipo de função, Jakobson (1982, p.27) afirma que “ela ocorre quando o receptor pergunta ao emissor “não o estou compreendendo – que quer dizer?”. ou quando, ao contrário, aquele que fala, antecipando perguntas como essa, pergunta a quem ouve “entende o que eu quero dizer ?”. Para finalizar, temos a função poética, que coloca em evidência a forma da mensagem, sendo assim, há cuidado mais com o que dizer do que como dizer. De acordo com o linguista Roman Jakobson (1982, p.128):

Qualquer tentativa de reduzir a esfera da função poética à poesia ou de confinar a poesia à função poética seria uma simplificação excessiva e enganadora. A função poética não é a única função da arte verbal, mas tão somente a função dominante, ao passo que, em todas as outras atividades verbais, ela funciona como um constituinte acessório, subsidiário.

Portanto, é importante destacar que embora a função poética seja própria da obra literária, não é pertinente e nem aceitável postulá-la como algo exclusivo da poesia ou tão pouco da literatura em geral, já que podemos encontrá-la também em outras atividades verbais.

Através de suas obras intituladas Marxismo e filosofia da linguagem (2002) e Estética da criação verbal (1997), Bakhtin edifica sua teoria de língua como interação, posicionando-se teoricamente avesso as ideias concebidas pelas correntes anteriormente citadas, localizando e também raciocinando a respeito das lacunas encontradas naquelas teorias. Sendo assim, ele buscou mostrar que o conceito de língua adotado pelo mesmo era indubitavelmente o mais apropriado para tratar dos fenômenos linguísticos.

Dessa forma, o ensino da língua deve ser entendido e ensinado como uma forma de interação, o professor tem o dever de elaborar estratégias que contemplem os mais variados textos-contextos em que se faz necessário o uso da linguagem, com o intuito de que seu aluno desenvolva a capacidade de adequá-la a heterogeneidade de situações presentes no seu cotidiano, sejam elas de caráter formais e informais, orais e escritas. Em relação ao trabalho do sociointeracionismo para com a linguagem, Costa-Hübes (2008) explica:

Na realidade, o que estas correntes têm em comum é o fator histórico e o fato de terem se estabelecido como disciplinas dentro de uma ciência específica, a Linguística, e de se sustentarem na filosofia da linguagem, elevando a interação à condição de princípio explicativo dos fatos da língua. Amparadas neste pressuposto, não mais trataram do estudo de palavras ou de frases isoladas, mas relacionadas ao texto,ao contexto sócio-histórico, ao(s) usuário(s) que as produziu/produziram, aos gêneros discursivos/textuais. Estamos nos referindo a uma nova concepção de linguagem: a concepção interacionista ou sociointeracionista que passa a tratar a língua como elemento histórico.(COSTA-HÜBES, 2008, p. 109-110 – grifos da autora.)

A concepção interacionista ou sociointeracionista ocupa o lugar de notável relevância para a maior parte dos teóricos que se dedicam a estudar os fenômenos da língua, no que diz respeito ao ensino, partindo do pressuposto de que o ensino da língua deve ter como principal objetivo formar cidadãos aptos a agir nas mais variados situações de atos de comunicação. Segundo Bronckart (1999, p.103), “a apropriação do gênero é um mecanismo fundamental de socialização, de inserção prática nas atividades comunicativas humanas”. Para a construção desta pesquisa, buscamos ter como base uma perspectiva de ensino engajada na noção de gêneros textuais, sendo assim, pretendemos através dela defender que é fundamental apresentar aos alunos situações que carreguem em si traços semelhantes àqueles que vivenciamos fora do âmbito escolar, reais, variadas, que tenham sentido para eles e que ocorrem em diferentes esferas de interação social.

Com o intuito de compreendermos de que maneira isso ocorre, recorremos às ideias de Miller (1984, apud BAZERMAN, 2006) que concebe o gênero textual como uma ação retórica tipificada, que funciona como uma resposta a situações recorrentes e socialmente estabelecidas. Essa teoria explica que, quando precisamos agir discursivamente em uma nova situação, tomamos como base situações semelhantes, nas quais buscamos alguma forma textual que nos permita atingir os objetivos pretendidos. Ao fazermos isso, acabamos criando um modelo textual que passa a fazer parte de nosso conhecimento e que será aplicado a outras situações semelhantes que possam surgir.

Sendo assim, os indivíduos que utilizam a língua notam que uma determinada forma de emitirem enunciados se faz eficaz em certas circunstâncias, e assim, quando presenciam circunstâncias que tragam algo em comum com as já vivenciadas anteriormente, sofrem uma grande influência de usar um tipo de enunciado semelhante. Através do tempo e das repetições, originam-se padrões e expectativas que englobam os envolvidos e os auxiliam na interpretação de circunstâncias e também na produção de enunciados. Como defende Bazerman (2006, p.23), os “gêneros são os lugares familiares para onde nos dirigimos para criar ações comunicativas inteligíveis uns com os outros.

Schneuwly (2004), relembrando as ideias de Bakhtin (1997), explica que, no momento da produção textual, o sujeito locutor/produtor escolhe um gênero em função de uma situação definida por uma série de parâmetros: finalidade (a vontade enunciativa ou o intuito discursivo do locutor), destinatários (o conjunto constituído dos parceiros), conteúdo (as necessidades da temática do objeto de sentido). Sendo assim, o gênero textual constrói uma base que serve como uma espécie de guia para uma ação discursiva. Bakthin (2007) fala que para ter sua estabilidade os gêneros textuais buscam subsídio a três elementos que os caracterizam, os quais são: o conteúdo temático, a construção composicional e o estilo.

Referente ao conteúdo temático, Schneuwly (2004) explica que o gênero define os conteúdos e os conhecimentos dizíveis por meio dele (por exemplo, é comum o gênero crônica tratar de assuntos do dia-a-dia, envolventes e de interesse de muitas pessoas; esse é o tipo de conteúdo específico para esse gênero); concomitantemente, o que precisa ser falado define a escolha de um gênero (se eu necessito escrever minha opinião a respeito de alguma matéria jornalística, eu consequentemente vou optar por escrever um artigo de opinião.

Em relação à construção composicional, refere-se a um tipo de estruturação e acabamento do todo. Ela é composta por certas organizações textuais partilhadas por manifestações de natureza linguísticas reconhecidas como integrantes de um gênero. Finalmente, o estilo que segundo Bakthin (1997, p.279) diz respeito à “seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais”. É importante enfatizar o fato de que o estilo não carece ser acatado como um efeito de individualidade de um falante/escritor, na verdade ele precisa ser considerado como um elemento próprio do gênero.

A junção dos três elementos citados acima constituem o gênero. Sendo assim, eles foram explanados separadamente apenas por uma questão de didática, pois todos os gêneros possuem esses três elementos não existindo possibilidade de enunciado com apenas um ou dois deles. Em concordância com isso, Bakhtin (1997, p.279) afirma que o conteúdo, a construção composicional e o estilo “fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado”.

Em relação à produção textual, Dolz e Schneuwly (2004) afirmam que o gênero se impõe como uma forma evidente que o enunciado a ser produzido deve tomar. Os gêneros textuais são entidades de grande poder e de acordo com Bronckart (1999), condicionam-nos a escolhas (do ponto de vista do léxico, do grau de formalidade ou da natureza dos temas) que não são aleatórias. Logo, os gêneros acabam por limitar nossa escrita. Bazerman (2005) complementa versando que o formato padrão do gênero nos dá um rumo em dois sentidos, sendo um em relação a qual informação apresentar e o outro de como apresentá-la.

Da mesma maneira, Antunes (2002) explana que na leitura os gêneros possibilitam a projeção e também o enquadramento das interpretações que o sujeito ouvinte/leitor do texto realiza, ao mesmo tempo em que atuam como uma orientação capaz de fazê-lo enxergar o suficiente para se construir uma compreensão global do texto. No âmbito desse assunto, Bakhtin (1997) assegura que todos nós exercemos domínio sobre um rico repertório de gêneros do discurso (orais e escritos) e consequentemente nos sentimos a vontade para utilizarmos com segurança e desenvoltura.

Ao ouvir a fala do outro, sabemos de imediato, bem nas primeiras palavras, pressentir-lhe o gênero, adivinhar-lhe o volume (a extensão aproximada do todo discursivo), a dada estrutura composicional, prever-lhe o fim, ou seja, desde o início, somos sensíveis ao todo discursivo que, em seguida, no processo da fala, evidenciará suas diferenciações (p. 302).

Ou ainda:

É de acordo com nosso domínio dos gêneros que usamos com desembaraço (...) que realizamos, com o máximo de perfeição, o intuito discursivo que livremente concebemos (p. 304).

Entendemos que nosso conhecimento construído a respeito do gênero nos dá sustentação para que possamos distinguir no primórdio de um ato de comunicação de caráter (oral ou escrita), o gênero a ser usado, seu tema, sua estrutura composicional e, conforme notamos isso a troca verbal ganhará forma, ou seja, se concretizará. Os usuários da língua possuem um saber intuitivo acerca de que as formas textuais necessitam encaixar-se à situação de interação. Antunes (2002) afirma que as pessoas possuem um saber intuitivo a respeito dos gêneros e que a capacidade de identificação e uso dos gêneros é parte do conhecimento de mundo. Nesse sentido, o domínio dos gêneros possui uma dimensão cognitiva. Bazerman (1994, p.134) salienta que o fato de as pessoas dominarem os gêneros é uma condição fundamental para a própria existência do gênero, ou seja, “uma forma textual que não é reconhecida como sendo de um tipo, tendo determinada força, não teria status nem valor social como gênero. Um gênero existe apenas à medida que seus usuários o reconhecem e o distinguem”.

De acordo com Bakhtin (1997), a respeito da padronização dos gêneros textuais existe uma distinção entre os gêneros primários e os gêneros secundários. É importante enfatizar que, segundo Rodrigues (2005), o critério usado por Bakhtin para diferenciá-los não é funcional, e sim histórico, baseado na concepção socioideológica da linguagem, mais especificamente na diferenciação entre ideologias do cotidiano e as ideologias estabilizadas e formalizadas.

Nos gêneros secundários encontramos uma complexidade. Derivados de uma situação discursiva mais complexa, organizada e relativamente mais evoluída, em um ambiente de crenças mais formais e especializadas, tidas como mediadoras diante das interações sociais nas esferas artística, científica, religiosa, jornalística, escolar etc. Contrariamente, os gêneros primários são mais simples, ao ponto que os mesmos são constituídos em condições de comunicação verbal imediata e espontânea, no âmbito da ideologia do dia-a-dia (ideologias que fogem da formalidade e sistematicidade).

A respeito do empenho de alguns estudiosos em identificar e classificar os gêneros, concordamos com Bazerman (1984, apud MARCUSCHI, 2008) quando ele enfatiza que não é possível estabelecer taxonomias ou até mesmo classificações duradouras. Nossas identificações de formas genéricas terão sempre curta duração, pois os “gêneros são o que as pessoas reconhecem como gêneros a cada momento do tempo.” (p. 16). Marcuschi (2008) apoia essa ideia e afirma que os gêneros não são classificáveis como formas puras nem podem ser catalogados de maneira rígida.

Relativo ao aspecto citado acima, o teórico Bronckart (1999) alega que os gêneros textuais são entidades que em sua profundidade encontram-se vagas. Fala ainda que as classificações existentes são divergentes e parciais, e que nenhuma delas pode ser considerada um modelo de referência estabilizado e dotado de coerência. Ele atribui essa dificuldade de classificação a pelo menos dois motivos. O primeiro motivo é em relação à variedade de critérios para definir um gênero. Segundo Bronckart (1999, p. 73),

Critérios referentes ao tipo de atividade humana implicada (gênero literário, científico, jornalístico etc.); critérios centrados no efeito comunicativo visado (gênero épico, poético, lírico, mimético etc.); critérios referentes ao tamanho e/ou natureza do suporte utilizado (romance, novela, artigo de jornal, reportagem etc.); critérios referentes ao conteúdo temático abordado (ficção científica, romance policial, receita de cozinha etc.).

Marcuschi (2008, p. 164) do mesmo modo em seus estudos indica os critérios que, segundo ele, usamos para dar nomes aos gêneros textuais e enfatiza a possibilidade de muitos deles atuarem em conjunto.

1. forma estrutural (gráfico; rodapé; debate; poema);
2. propósito comunicativo (errata; endereço);
3. conteúdo (nota de compra; resumo de novela);
4. meio de transmissão (telefonema; telegrama; e-mail);
5. papéis dos interlocutores (exame oral; autorização);
6. contexto situacional (conversação espontânea; carta pessoal).

Bronckart (1999) relata que o critério mais objetivo que poderia ser utilizado para identificar e classificar os gêneros seria tomar como base as unidades e as regras linguísticas específicas que eles mobilizam. No entanto, ele adianta que a aplicação desse critério não é plausível, visto que um gênero pode ser composto por vários segmentos distintos.

Reavendo a discussão a respeito da dificuldade de classificação do gênero devido à diversidade de critérios utilizados, apontada por Bronckart (1999), podemos concluir que, dentre os vários aspectos que envolvem os gêneros e que podem ser usados para defini-lo, há um consenso entre vários autores de que a funcionalidade é o elemento primordial nesse processo.

Essa dificuldade de classificação, segundo Bronckart (1999), decorre ainda de um segundo motivo: o caráter fundamentalmente histórico e adaptativo dos gêneros. Devido a eles se multiplicam e se modificam à medida que a esfera de circulação onde eles atuam se desenvolve e se complexifica. Marcuschi (2008) explica que o gênero é flexível e variável, da mesma forma que seu principal componente – a língua. Isso porque, através da variação da língua, os gêneros também mudam. Portanto, eles desenvolvem-se de maneira dinâmica: eles variam, fundem-se, misturam-se, adaptam-se, modificam-se e renovam-se para manter sua identidade funcional com inovação organizacional. Cada novo gênero aumenta e influencia os gêneros da esfera social onde atua, multiplicando-se. Alguns gêneros tendem a desaparecer devido à ausência das condições sociocomunicativas que os geraram, assim como gêneros já desaparecidos podem reaparecer sob formas parcialmente diferentes.

Concomitantemente, como aponta Bronckart (1999), a emergência de novos gêneros pode estar relacionada ao surgimento de novas motivações sociais, ao aparecimento de novas circunstâncias comunicativas ou ao aparecimento de novos suportes de comunicação. Porém, Marcuschi (2008) salienta que nem sempre temos um gênero essencialmente novo. Devido ao fato de que gêneros novos também surgem a partir de outros, de acordo com as novas necessidades, atividades ou tecnologias que vão emergindo. Os gêneros se imbricam e se interpenetram para construírem novos gêneros e, assim, solidificam-se novas formas com novas funções.

Para concluir a reflexão sobre os gêneros textuais, é importante ainda citarmos sobre sua relação com a realidade social. Marcuschi (2008) salienta que não podemos manuseá-los independentemente de sua ligação com as atividades humanas em todas as esferas. Eles são parte integrante da estrutura comunicativa de toda sociedade, na medida em que ajudam a estruturar as ações de uma comunidade e a intermediar as práticas sociais. Permitem, assim, lidar de maneira mais estável com as relações humanas em que a linguagem é utilizada. É justamente nesse sentido que Miller (1994, apud CARVALHO, 2005) aponta os gêneros como categorias operativas e instrumentos globais de ação social. Ainda segundo essa estudiosa, o gênero é um mecanismo de estruturação e interação que regula as ações comunicativas individuais e o sistema social, sendo o elo e o mediador entre o particular e o público, entre o indivíduo e a comunidade.

Portanto, o estudo dos gêneros textuais consente enfatizar a língua em funcionamento nas mais variadas atividades de cunhos sociais e culturais. Para concluir este tópico, vamos adotar as palavras de Marcuschi (2008) e fazer um breve apanhado das principais características definidoras dos gêneros.

Resumidamente, poderia dizer que os gêneros são entidades: a) dinâmicas; b) históricas; c) sociais; d) situadas; e) comunicativas; f) orientadas para fins específicos; g) ligadas a determinadas comunidades discursivas; h) ligadas a domínios discursivos; i) recorrentes; j) estabilizadas em formatos mais ou menos claros. (p. 159).


REFERÊNCIAS

BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 2 ed. São Paulo: HUCIT,1981.
COSTA-HÜBES, T. C. O processo de formação continuada dos professores do Oeste do Paraná: um resgate histórico-reflexivo da formação em língua portuguesa. Londrina, PR: UEL,2008 (Tese de doutoramento.
______. A interação verbal. In: Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 10. ed. São Paulo: Ammablume, 2002, p. 110-136.
SAUSSURE, F. de. Curso de Linguística Geral. 8. ed. São Paulo: Cultrix, 1977.
JAKOBSON, R. Linguística e comunicação. 21. ed. São Paulo: Cultrix, 1982.
BARROS, D. P. de. A comunicação humana. In: FIORIN, J. L. (Org.). Introdução à linguística: objetos teóricos. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2004, p. 25-53.
______. Os gêneros do discurso. In: Estética da Criação Verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
BRONCKART, J. P. Atividade de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo. Trad. Ana Rachel Machado e Pericles Cunha. São Paulo: Educ, 1999.
BAZERMAN, C. Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez, 2005.
______. Gênero, agência e escrita. Trad. Judith Chambliss Hoffnagel e Angela Paiva Dionísio. São Paulo: Cortez, 2006.
SCHNEUWLY, B. Gêneros e tipos de discurso: considerações psicológicas e ontogenéticas. In: ROJO, R.; CORDEIRO, G. S. (Trad. e Org.). Gêneros orais e escritos na escola. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2004, p. 21-40.
______. Os gêneros do discurso. In: Estética da Criação Verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
______. O enunciado, unidade da comunicação verbal. In: Estética da criação verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 289-326
BRONCKART, J. P. Atividade de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo. Trad. Ana Rachel Machado e Pericles Cunha. São Paulo: Educ, 1999.
DOLZ, J.; SCHNEUWLY, B. Os gêneros escolares – das práticas de linguagem aos objetos de ensino. In: ROJO, R.; CORDEIRO, G. S. (Trad. e Org.). Gêneros orais e escritos na escola. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2004, p. 71-94.
BAZERMAN, C. Gêneros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez, 2005.
ANTUNES, I. C. Língua, gêneros textuais e ensino: considerações teóricas e implicações pedagógicas. Perspectiva. Florianópolis, v.20, n.01, p. 65-76, jan./jun. 2002 a.
CARVALHO, G. de. Gênero como ação social em Miller e Bazerman: o conceito, uma sugestão e um exemplo. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Orgs.) Gêneros – teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005, p. 130-149.
RODRIGUES, R. R. Os gêneros do discurso na perspectiva dialógica da linguagem: A abordagem de Bakhtin. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Orgs.) Gêneros – teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola, 2005, p. 152-183.
______. Gêneros textuais: configuração, dinamicidade e circulação. In: KARWOSKI, A. M.; GAYDECZKA, B.; BRITO, K. S. (Orgs.) Gêneros textuais – reflexões e ensino. 3. ed. rev. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p. 15-2.


* Imagem: http://portalinho.com/1028/7-editores-de-texto-online-focados-para-aquilo-que-proventura-mais-gosta-de-fazer-escrever/