terça-feira, 30 de agosto de 2016

Cindido, era assim que eu era desde

*

Por Germano Xavier


# a

quando o dia chegar já estaremos fartos dele
as cordas que nos prendem não deixam soltura para escapes
a alma tenta escorregar pelos buracos invisíveis do dia
a poesia se esgueirando entre os dedos
chega longe
e quase vive


# b

quão escritas estão as nossas páginas em branco?
quão cheios de nós estão os cômodos que nunca habitamos?
quando nos expulsou a estrada que ainda não andamos?
veio aberta a carta secreta
violado o segredo da felicidade
roubada a grande esperança
não era o meu o solo que me pariu
a vida que não comecei
acabou por me terminar


# c

na guerra que compartilhamos
o conflito é irrelevante
e que valor tem o sangue derramado?
sua cor e origem
é o que importa
para os jornais
para os anais
diga:
que cor tinha o pelo
do macaco seu ancestral?
ele usava garfo pra comer bananas e grelhava bem a carne do rival?
civil civilização civilizados
a guerra tem nomes bonitos
quanto é feia a boca que a faz


# d

não importam as armas
não importa a história
não importa a duração
nem o tamanho da encrenca
o conflito é irrelevante
o que importa é que estamos aqui
em silêncio amoroso
ou gritando impropérios
felizes ou morrendo
em fila indiana
importa é que estamos
instalados na luta
ou pendurados nela
pelo nariz
fazendo revolução em guerrilhas
em trapos de convicções
em doce ilusão de estar
fazendo revolução em guerrilhas
com amor e alguma poesia


# e

nem lua
nem constelações
uma estrela cadente
me cai bem


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Delerium-631507941

domingo, 28 de agosto de 2016

Refrigério

*

Por Germano Xavier


Início da tarde. Domingo. Fim do mês. O ano entrando no limite. Ponho-me a escrever munido de tua imagem no pensamento. Penso em você o dia inteiro. Há uma nuvem espessa que se adensa entre nós. Ninguém haveria mesmo de dizer que seria fácil. O mundo é tão feito de acasos como os nossos, como os meus, como os seus. Somos dois acasos? O que somos? O que seremos? O que seremos amanhã? Por que eu já te amo tanto? Sim, eu te amo. Sim, eu também te amo. O amor será sempre uma palavra em tua boca. E poemas para você na minha. E algo mais que me incendeia. E estou implorando algo? Nesta vida só implorei algo a um ser: Deus. Naturalmente, ele não me ouviu. Talvez você seja mais generosa. Ao menos você é real.

Não se dê para esses imbecis, os que te assediam sem saber de tua alma. Portanto. Você não merece isso. O que eu mereço? Você? Ou uma nobre e recatada solidão? Eu te amo! Eu amo você. Eu sei. Mas eu não acredito em estrelas - não sou eu que acredito em estrelas! Não voo. E nem titubeio. Eu te amo em queda livre sem amarras de segurança. Mas posso acreditar em estrelas. Depois de você tudo é possível. As pedras, antes de machucarem teus olhos, eram flores dentro de mim. Eram pingos de mel em meus lábios. O veneno, meu bem, a raiva de tudo que transforma em pedras, as flores que quero oferecer. Perdoe-me pelas pedras, pelas flores. Pela incapacidade de te amar serena e docemente. Como tu. Mas te amo. Em fúria. Em estrangulamento de saudade. Em guerra contra tudo. Em resistência.

Mostrei para teus olhos de dar vida toda a força de minha fraqueza, lustrei feridas, aferi doenças e calculei resultados. Carreguei o fardo da sinceridade doentia para adoecer teu olhar para o meu olhar adoecido. Você apenas sorriu. Sem rejeição no olhar. Livrou-me de mim. E sobrevivo hoje. Se me tirassem o direito de te amar a pretexto de pureza ou protocolo social, me encolheria em recusa e se vencida como pássaro sem bico no fim de tudo e com secreto ardor te chamaria de amigo, você diz. Mas não é amizade, você sabe. Somos improváveis somente em sendo assim.

Você, todo um laboratório. Mistura, composição, alquimia. Foi você quem patenteou o perfume do amor? Há momentos em que preciso apenas de alguma coisa tua, com urgência de vida, um oi ou uma flor virtual. Não posso esperar muito, mas desejo infinito. Tão pouco já me alimenta, mas você me deixa com fome. Quase sempre. Às vezes não. Às vezes você é banquete. Mas minha fome vem diariamente. Por isso o pecado tão próximo, o do exagero. Porque até o amor requer calmaria. Requer fluidez. Leveza. A verdade é que fui ao fundo do poço por você. E lá, quando toquei a circular parede, percebi que o fundo do poço não é só escuridão. Fechei os olhos e enxerguei com o coração. Em minha frente, logo ali, uma linda mulher pousava suas mãos nas teclas de um belíssimo instrumento de cordas, mais antigo que a própria música. O temor, por um longo instante, tomou-me disfarçado de esquiva. A entrega só veio depois do primeiro olhar, na distância inconteste e impiedosa de alguns poucos centímetros quilométricos. Foi vivo. Sabemos.

Encontrar você no fundo do poço foi como quando sofri a mais vasta das seduções literárias, mesmo sabedor de que uma sedução literária não precisa de ornamentos, já que o simples ato de seduzir não vale muita coisa. Mas valeu pelo que me revelou. Há humanidade no que construímos. Existiu sentido em você. Lidar com o amor é fazer um exercício de troca de perspectivas. Falar sobre o amor é, em certa medida, dialogar como o ponto de vista do outro, na tentativa de compreendê-lo e de fazer analogias possíveis com o nosso. Nada no amor é inútil, nem o que nele faz doer. Certeza. O amor, esta dupla viagem. Esta guerra!

O que ficou, refrigério. Ainda é começo. Estrada interminável. A viagem se configura. Relevo íngreme. Somos personagens do sempre. Um livro se espelha como definidor de luas. Conversa iniciada. Solar. Amor que amo em mim. Você respira. Com todos os alvéolos. Uma saudade instalada. Eu que me preocupo. Eu que durmo pouco. O receio da gente se perder ainda no início. Aquele sonho: sonhei que eu estava nos anos 40 em uma festa ou encontro com a mocidade - e estávamos em uma roda ou coisa parecida - e por dentro eu tinha uma vontade imensa de saltar - pular, elevar-me -, mas tinha receio daquelas pessoas que estavam por perto formando um círculo. Então, um moço pegou minha mão e elevou-se bem alto, deu uma pirueta e me levou com ele... O transcorrer do sonho foi sobre esse mesmo salto - sendo ele em outros lugares de outras maneiras... Você diz. Eu digo. E pensar que estamos bem além de uma simples dança. Esse amor disforme. Gotas de vida, pingo a pingo, enche rio, enche mar.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Got-The-Greys-579802304

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Chuva serôdia

*

Por Germano Xavier


"Yo agito pañuelos en la noche
y barcos sedientos de realidad
bailan conmigo."

(Excerto do poema La Jaula, de Alejandra Pizarnik)


o que há contido nos contém.
não é mais que uma morte o amor,
modo de semear o solo, grão úmido, 
vida ou esfera maior.

eu sei das águas viscerais
e sei dos ásperos mares.
eu sei do feminil concerto de tua boca,
da lâmina que é teu ventre,
do fértil desastre dos desperdícios,
daquele estrondo incontido e elevado e vocal 
nas manhãs umbilicais de teu rosto.

nem areia nem sílica, o líquido na taça.
o conteúdo que bebo, o que me põe a refletir, 
o que me embriaga, o que tem cheiro, gosto, cor.
o que não é estanque.
o que é agressão, mas não moléstia.
o que ondula, invadindo.

não misturo o que não importa.
meu grito é um incêndio natimorto.
falo por meio dos silêncios 
e eu escreverei acerca de uma mulher de tantas farturas/ 
que viveu sob o tempo das belezas menos impostoras/ 
um mistério de longos cabelos negros/ 
seios fartos, mãos torturantes, calorosos recantos/ 
e de angústias caminhantes.

(uma mulher imperial)

estou na última estação.
o trem descarrilado me eleva inquéritos de ordem.
toda a minha moral me sucede. 
sou precedido por respostas.
abrir a boca e beber o vento é já minha sina.
engulo doses de ar, cunho-me na pose onde me dispo
de mim, de toda aurora sem cor, 
de qualquer queda sem dor.

e tu ocultas o carmim dos sonhos doentes,
a fúria das insones sombras ao meio dia.
tu, la muerte desnuda, mi nombre hasta el alba,
mi gran muerte y dulce cansancio.

lá fora a lua,
a última estrela da loucura,
única certeza.

cá dentro o sol 
e o inferno de te saber.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Chuva-142676281

Retalhos in natura

*

Por Germano Xavier


#1

digo não
ao remédio maquiador simplório
de dores inatingíveis. digo não
aos paliativos modernos
para entorpecer sentidos e disfarçar
a aparência da dor. prefiro deixar a ferida in natura
doer naturalmente, esgotar seus impulsos torturantes
sem nenhuma tentativa invasiva
de conter o seu fluxo natural.

a natureza da dor é doer.
a minha é sentir.



#2

tenho medo de não conseguir. tenho medo
de sucumbir ao fundo das coisas e não voltar mais.
tenho medo de olhar para dentro do abismo
e ser sugado para as entranhas da luz da realidade sem máscaras.
tenho medo de não olhar fundo e perder a visão do coração.
tenho medo de olhar torto e perder o ângulo onde tudo faz sentido.
onde o sentido faz tudo.

tenho medo de fechar os olhos
e perder o relance onde afloram as respostas.
tenho medo de piscar no momento exato da revelação de grande valor.
ou do valor da revelação. tenho medo
de não ver o amor chegar, ficar ou ir embora.
tenho medo de o amor não ver. de me ver. de amor. de.



#3

não posso voltar... já gastei o amor que só vem uma vez. por vezes, tenho inveja dos mortos. porque eles não sentem nada. não consigo dormir. e também tenho vergonha de pertencer à raça humana. tenho uma lágrima aqui... me desculpe por ser ela também tua. tua lágrima em mim. eu lágrima tua. eu vida escorrendo em minha face tua. tu, lágrima minha. não quero dormir. não quero acordar. eu quero escorrer em teu rosto.



#4

você não existe, Deus! você não existe! mas, se você existe... quem pode se recuperar de tua crueldade? onde você estava quando os inocentes foram violados? quando os bons foram assassinados? quando os sonhadores foram enganados? quando o mal destruiu o que nos disse para amar, onde se escondia? por que nos deu o amor quando sabia que o ódio era o nosso destino? por que nos fez amar o que nos tiraria? você não pode existir. não pode. se existe e fez tudo isso, gostaria que não existisse. não posso conceber tamanha maldade irônica num único ser. não sei explicar que radical loucura te move, se sadismo ou tirania ou brincadeira de mau gosto.


#5

Sim. Talvez eu tenha achado bonita demais aquela dança. Uma dança assustadoramente sensual, poética, íntima e profunda. Um êxtase para olhos sensíveis e levemente tristes. Sim. Talvez eu tenha desejado imitar. Mas sempre soube da exclusividade dos milagres. E do inatingível do amor demais. Sim. Admirei aquela dança que, de tão íntima, chegava a ser constrangedora. Admirei e amei o amor que escorre da poesia. Mas sou apenas olhos cansados. Sonhos interrompidos e rio a correr sem rumo. Não imito. Já tenho o meu próprio modo de ser infeliz.


#6

Sou tenso porque o mundo é hostil. Sou teimosia em riste. Sou lágrima em cascata. E quando digo que amo é porque já eliminei todas as chances de dizer que não. É porque já calculei e provei que não amar não é mesmo possível. Não nesta vida. Não nesta sexta-feira de tua falta. Não nesta brincadeira inocente onde ninguém se machuca. Mas essa brincadeira não é muito inocente. E alguém já deixou pedaços ensanguentados pelo caminho. Depois fechou o parêntese e começou outro parágrafo. Não precisamos de muita coisa para fazer o mundo girar, não é mesmo? Só do mundo. E do giro. Você veio e apagou a luz. Depois tudo virou passado e cortesia fingida. Cantiga de amor às avessas. Relatório de erro. O amor. A vida.


#7

Você pensa em mim. Eu penso em você. Você titubeia. Eu falo do nada. Você musica. Eu poeto. Digo que a rosa é simples. Você crê em estrelas. Faço pipas solitárias. Você voa. Cadeio-me. Livro-te. De mim. De você. Olhamos diferentes para a mesma estrada. Critico aspectos metodológicos diversos. Tudo é tão. O amor. É vão?


#8

não sei se foi o dia
de chuva
ou a natural deterioração
do tempo
mas hoje a saudade
veio com a força dos séculos
pesando em meus ombros
a tua falta presença



#9

a certa altura
toda a poesia vira pó
e a palavra amor,
(entre clichês familiares),
a única inscrição

(grafada às pressas)
na improvisada lápide



#10

Não tem jeito. Vou continuar apertando o botão da dor pela falta de. (Ou é autocomiseração? Ou é estupidez? É exorcismo. Patético. Como todo exorcismo). Um pouco mais e até entorpecer. Talvez perder os sentidos todos. As vontades todas. As lembranças todas. A vida toda. Vou continuar correndo atrás do trem, ou talvez, na frente dele, um dia. Não sei onde ir para te encontrar, amor. Não sei onde ir para não te encontrar, meu amor. Mostre o caminho para a tua exatidão. Nem o inferno, nem a vida, nem a ideia da eternidade. O que me aterroriza e me tortura é amar você.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/con-sentimento-134836052

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XIII)

*


Olá, querido amigo!

Há quanto tempo não nos falamos por aqui. Só em intenções, em tentativas paralelas, em pequenos toques de palavras, com poesia, com recados breves.

Mas por aqui é diferente. A gente fala cara a cara e neste momento estou a ver a tua, espantada, mas serena, dizendo: “A Clara acordou para nós”, com um certo ar de reprovação mas ao mesmo tempo contemporizador. Não vou justificar-me. Tu farás isso, muito melhor do que eu, só tu percebes por que motivo as palavras se transformam em vazio algumas vezes na nossa vida; deixemo-las falar como bem entendem, calando-se, como parece ter sido o caso dos últimos meses.

Tenho estado em contemplação do mundo, numa expectativa permanente. Agora, no exato momento, ouvindo Tom Jobim cantar Insensatez com uma banda que não consegui identificar. E lembrei-me de Chopin (Op. 28 nº 4), https://www.youtube.com/watch?v=ef-4Bv5Ng0w, por ter lido algo a respeito da proximidade do tema do Tom com esta sinfonia, nem sei se é o termo. A verdade é que fui ouvi-la e confirmei a semelhança. Sublime descoberta que partilho contigo, meu amigo, é a primeira vez que me lembro de escrever uma carta com um link para o youtube, sinal dos tempos…

Começaram os Jogos Olímpicos no Rio, e a nossa atenção está agora voltada também para os nossos irmãos brasileiros e para o Rio de Janeiro, para o mundo, para esse encontro supremo de culturas e de atletas. A imprensa vai contando pequenas anedotas de bastidores, pormenores sobre alojamento, acolhimento; recordo uma citação engraçada e suscetível de gerar polémica também, que ouvi a respeito da imprensa há anos atrás: a imprensa é como o bikini, mostra muita coisa, mas não mostra o essencial. Partindo talvez do princípio que o que se oculta é sempre essencial, quem sabe se pelo simples facto de ser omitido.

Aqui em Portugal há um assunto recorrente que são os fogos de verão, causados por mão criminosa ou acidentais, ninguém sabe, poucas vezes se chega a uma conclusão. Neste momento há incêndios de grandes proporções em várias zonas de Portugal, inclusive no Funchal, que atingiram famílias de forma dramática. Fala-se em empresas privadas que combatem os fogos e que teriam interesse em que estes se propagassem. Parece uma coisa monstruosa, mas não impossível. Em todo o caso, à falta de provas, não passam de meras teorias, especulações, mais ou menos fundamentadas.

Tenho que ter cuidado para não repetir histórias, assuntos, comentários, talvez esteja a entrar naquela idade interessante em que se repetem relatos sem cessar e devolvemos aos amigos as histórias que aprendemos com eles. Se são amigos da mesma idade a coisa funciona, pois eles também já não se lembram de ter contado… mas se forem mais novos, mais atentos, mais alerta e bastante críticos, a coisa descamba… envelhecer ou amadurecer proporciona-nos experiências curiosas. Noutro dia uma amiga querida dizia-me que eu não tinha rugas. Mas eu reagi: eu tenho, sim, não aquelas rugas como sulcos do arado na terra, não aquelas crateras de terra seca, fendas de terramoto, mas as rugas que eu tenho, embora discretas, são visíveis a olho nu. Acontece que a vista também já não as alcança no espelho, por isso, mais rugas e menos golpe de vista, equivale a juventude eterna! Não é sábia a natureza? E aqui entre nós, mesmo que as veja, elas são a última das minhas preocupações, não por falta de coqueteria mas porque considero que tenho preocupações mais prementes. E se as rugas dos outros não me incomodam, porque as minhas haveriam de afastar alguém? Irrita-me um bocado esse culto exacerbado da juventude que faz com a pessoa se sinta quase culpada por não parecer ter 20 anos aos 50. Porque deveria parecê-lo? A pessoa deve viver bem com a idade que tem: cuidar da saúde física e mental não significa recusa em aceitar que o tempo deixa marcas. Pode parecer um lugar comum, mas creio que o envelhecimento é uma questão que preocupa a todos, de forma mais concreta a partir de certa idade, e por uma questão social e cultural, as mulheres. Creio que a natureza nos castiga mais e a sociedade exige mais de nós em termos físicos. A mulher tem um curto período da sua vida para procriar, esse período é muito mais prolongado no homem. A gravidez provoca alterações de peso bruscas e variações hormonais. Talvez esteja a ser injusta ou insensível com os homens, no geral, mas nunca ouvi nenhum queixar-se dos efeitos da andropausa, se calhar apenas não o fazem à minha frente… hoje o meu discurso raia o feminismo mais primário e “déplacé”, mas não é por mal, nem por quaisquer radicalismos, apenas me sinto à vontade contigo para não insistir no socialmente correto o tempo todo. É cansativo ser assim… eu não quero ser assim contigo, nem tu querias, certamente.

A situação política no Brasil que referes na tua última carta também é inquietante. Nós preocupamo-nos aqui, e eu prefiro comparar a tua versão das coisas com as várias versões oficiais, o cidadão sente na pele todas as indignações, desrespeitos e manipulações e é importante conhecer o impacto da instabilidade na vida das pessoas reais, como tu, que és meu amigo e cuja palavra me chega sempre fresca e cheia de emoção, de verdade, sem contenções, espontânea como tu és.

O mundo já não é um lugar seguro; será que já o foi alguma vez? A violência grassa em qualquer ponto do globo, as religiões apostam na ritualização em detrimento da essência, as doutrinas são substituídas por práticas coreografadas, …eu sou uma ignorante nestas coisas, chamo coreografia à liturgia e já fui repreendida por isso. Mas tu entendes, não é? Eu preciso de ver e sentir para além do óbvio, nesta matéria e no geral.

Agora o meu pensamento voou para um fait-divers, que te vai deliciar: no outro dia encontrei uma menina numa festa familiar, uma menina da Guiné Bissau com quem eu ensaiava uns passos de dança. Dançámos funaná e ficámos super transpiradas, ela, eu e outros meninos com quem brincámos um par de horas, uma vez que eu, ingenuamente, cheguei à festa à hora marcada, coisa quase inédita entre latinos e africanos, e tínhamos que entreter-nos com alguma coisa…a menina era um doce, tinha uns olhos negros enormes e bonitos. Teria os seus cinco anos, pelo que percebi. (Sabes que eu tenho um monte de aventuras com crianças, histórias anedóticas, deve ser o meu lado Peter Pan). Então nós dançámos e desenhámos, no telemóvel, eu fazendo retratos e ela e os amiguinhos posando. Depois, do nada, a menina atirou: “Tu és branca ou és preta?”. Eu ri-me e nem respondi diretamente. Acho que apenas devolvi a pergunta, perguntei se isso para ela era importante. Aquela criança viu claramente para além da cor da pele, ela viu cultura, atitudes, reações e forma de estar; ela abarcou, com o seu olhar ainda puro de criança, tudo o que compõe um ser humano. Depois, quando eu fazia o seu retrato, ela pediu baixinho: quero que me faças um cabelo como o teu… aquele pedido entristeceu-me, disse-lhe que ela tinha um cabelo lindíssimo e um penteado muito bem feito, trancinhas ornadas com missangas, coisa trabalhosa, feita pela mãe. Mas eu percebi que a identidade e a consciência de si é uma coisa que se forma cedo, esta menina precisa de ter padrões positivos dentro da sua comunidade de origem, de perceber a beleza como algo muito mais abrangente, muito mais vasto, uma coisa feita de muitas cores e em constante mutação. Eu sei que estás a sentir o mesmo que eu em relação a isto, mas para entenderes melhor mando-te o retrato da menina. Da Jessica.

Agora eu vou ter que te abandonar, só no papel, como sabes, já antecipando a tua carta que virá um dia, quando eu menos esperar, envolta em nuvens e em sabores sempre diferentes. Com laços e fitas e papel brilhante. Uma coisa de encher a alma. Eu acabo por saber sempre de ti, querido Viana, porque te adivinho e te farejo, pelo que expões e pelo que omites, e até pela tua discrição e pelo teu cansaço. Mas é muito bom quando as notícias chegam por tua iniciativa e eu sinto que também precisas destas conversas para te reciclares.

Aqui está um calor insuportável. Eu não aprecio calor em excesso, ando permanentemente com um leque na carteira, bebo água sem parar.

Mando um abraço feito beijo para esse reino distante de onde virás um dia para me visitar, e visitar esta terra onde te sentirás em casa. Tens já aqui muitos amigos: Cristina, Sant’Ana e o Dudo lá em Luanda também, que adora ler-te. E mesa posta, passeios preparados e conversas intermináveis a germinar. Fico à espera de ti e das tuas palavras que abrem portas.

Clara
Lisboa, 10 de Agosto de 2016.


******


*

Clara,

Só em breves levantes, o encontro feroz. Assim, feito. Quisto. Bem. O encontro que marca a vontade de estar em paz, em pensamento, em corrida de se ir ao abraço amigo, força leve. A nossa. Mas que agora estamos, em novo confronto de ideias. Tardamos, mas estamos. Sempre. Assim que é. Não se faz preciso nenhuma justificativa mais aprofundada. O mergulho é o de outrora. Tua voz daí combinando marés com minhas sensações transatlânticas. Esse silêncio de dias, de meses até, bem necessário se faz, quando assim é o rumar, o remar. Da vida, das ondas de nossa amizade.

Pois bem, Clara, nos mesmos instantes em que você é levada via youtube a pensar e refletir sobre as coisas e o mundo, os Jogos Olímpicos do Rio – 2016 começam e, zás!, já terminam. No fundo, a mesma conjuntura de sempre. As grandes potências esportivas no topo. O Brasil, com todas as suas dificuldades, tentando ser menos pior que nos últimos Jogos. Não se pode ser exemplo em esporte sem dar incentivo a atletas e sem estruturação básica para treinos etc. O Brasil é uma piada nesse sentido. Não sei como é aí em Portugal... Bilhões de dólares jogados fora, pelo ralo, muito destes corrompidos e desviados, é certo, e no fim... no fim... no fim, nada. O desastre é colorido e tem as cores da exclusão. Pagaremos as contas, paulatinamente. Já estamos pagando. Ou melhor, há bastante tempo já pagamos.

Você citando assim essas notícias tristes sobre incêndios, Clara, e eu me recordo com tristeza das muitas vezes que a minha Chapada Diamantina ardeu em chamas e nada, absolutamente nada mesmo, era feito. Por lá também havia tais comentários, de que haveria uma “indústria ou máquina” interessada nesse fogo. De doer o coração da gente, não? Pensar que é bem possível que assim se dê...

Eu sinto raiva, por muita coisa. Coisas erradas. Coisas que precisamos enfrentar e até engolir. O mundo é cão. Estou sempre em estado de fúria. Minhas mãos estão sempre querendo esmagar alguém (não qualquer um!), esmagar o mundo, o tempo, a História, a vida toda. Colocar tudo num imenso liquidificador, bater e devolver à inexistência eterna. Mas não posso. Há leis - mas não justiça! Deveria ser legal, por exemplo, matar em legítima defesa (mesmo dez ou vinte anos depois) a quem destruiu a sua vida - defesa que, antes, no momento do crime, não seria possível, por falta de capacidade. Destruiu? Sim, ao menos a parte inocente, a que era capaz de acreditar. E voar. Mas a raiva não vai embora quando é por justa motivação. A raiva é a herança maldita dos injustiçados, dos esmagados e enterrados vivos - mas vivem? Talvez a raiva seja a única prova de que vivem. Vivemos. A raiva é boa e ruim. É espada de dois gumes que só corta de um lado. Do nosso. Quando se está cego de raiva é difícil ver à nossa frente apenas os culpados. A raiva é uma arma sem mira de precisão. É bala perdida. Veneno espalhado a esmo nos vãos incertos do mundo. E eu, radicalmente contra toda forma de violência e vingança... Mas há dias, há dias de enfrentar monstros antigos. E resistir.

Temos dias difíceis. Nossos olhos quase sempre não amenizam a dor da realidade. A não ser nestes casos aí, contados por ti. Engraçado, dias atrás falava eu sobre a idade com uma pessoa. A idade que, acreditando em Quintanares, só vem de duas formas: ou idade de vida ou idade de morte. Melhor encarar assim, não? Estamos vivos e isso deveria bastar. Entrar em parafuso por conta de uma ou duas rugas no rosto não seria nada interessante, penso eu.

Ufas e ufas, Clara! Política aqui, de mal a pior, cobras e corvos, animalesca luta pelo poder, vampiros e sanguessugas... cada qual com seus próprios interesses, que não os do povo mais necessitado. Preços aumentando, dinheiro faltando. Receita de um desastre? Não sei. Prefiro acreditar que tudo isso passará e que novos ventos pousem no Brasil. E sim, eu te entendo, eu te entendo... tudo agora é panaceia, tudo ou quase. Que fazer, que fazer?

E a Jessiquinha, heim?!, tão linda e de tão nos preocupar já. Que mal o mundo faz com a cabeça de um serzinho desses? Quem terá sido o mal, o que terá sido o mal? Necessário investigar. A negritude é expansão, roupagem de força. Humanidade inteira numa cor. Precisa ser entendida desde pequena, precisa ser vivida. Quem terá sido o mal, o que terá sido o mal? Ah, Jessiquinha, continue a bailar com teus cabelos livres de qualquer maldade de ideias! Você vai ver que és bem mais quando! Vai, Jessiquinha! Vá! Seja! Seja!

Dizer, por fim, que a vida está sempre a nos apresentar bonitezas, e que precisamos sempre estar com a alma aberta diante desses acontecimentos. Apesar de todas as dificuldades, a vida me tem sido muito bonita nos últimos dias. Tenho me sentido mais vivo. Desejo isso a você também, Clara, uma vida sempre mais vida. Abraços em todos aí e até bem breve!

Caruaru dos bonecos de barro de Vitalino, 23 de agosto de 2016.


********

Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens: Luísa Fresta e Deviantart.com.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LIX)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sábado, 9 de abril de 2016
A estreita guarda das noções

à José Barbosa


L’étroite garde des notions

le temps de l’âme est insaisissable
aucune technique n’est développée,
et comme (im)précisé,
entre la vocation et l’intérêt,
entre la vocation et le plongeon
peut-on s’offrir le métier de rêveur?

nous voudrions, alors
les bras eternels des océans,
les lamelles aveugles des écumes,
pour pouvoir, en vain,
marcher en à-coups de départ
parmi la lecture affligée des dilemmes.

des fils de vie appliqués au mystère
domptent l’invisible vague des finissons,
qui mémorise, inlassablement
l’étroite garde des notions.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/2-611972814

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LVIII)

*
Por Germano Xavier

"tradução livre"



Nosso tempo


Notre temps

rompre.
laisser venir les printemps.
même si rien n’arrive, c’est une vie.
c’était la vie même.

intervenir. et connaître pour pouvoir rompre.
connaître pour intervenir.
et connaître pour agir.
contribuer.

// l’erreur est aussi un manifeste//
la poésie est dans les actes.
la poésie est dans les faits.

la poésie n’est pas là
pour être n’importe qui.

la dame sans principes
est quelque part dans le monde.
et nous sommes là
dans le monde
pour vivre.

c’est un temps des sens,
un temps des hommes sensibles.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Flowing-Through-The-Story-Of-Your-Whole-Life-602950222

Dentro de nossos silêncios

*

Por Germano Xavier


dentro

de nossos silêncios o segredo dos encantados
o de enxergar o que não há dentro de nossos silêncios
o segredo dos poetas
o de transformar dor em arte
há dentro de nossos silêncios o segredo dos simples
o de encontrar a beleza oculta

há dentro de nossos silêncios o segredo dos sonâmbulos
o de continuar andando há dentro de nossos silêncios
o segredo dos náufragos
o de segurar a respiração há dentro de nossos silêncios o segredo dos crentes
o de não fazer mais perguntas há dentro
de nossos silêncios o segredo dos amantes
o de fechar os olhos
há dentro de nossos silêncios o segredo dos inocentes
o de não saber que sabe há
dentro de nossos silêncios o segredo dos divergentes
o de ser mais gente




* Imagem: http://www.deviantart.com/art/february-mood-287875763

domingo, 14 de agosto de 2016

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LVII)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Quinta-feira, 10 de Março de 2016
Um intenso toque seco


Un intense coup sec

l’écheveau, comme un trait.
l’identification, comme un sceau.
le foyer, comme une devise.
le mot, comme un appel.

des âmes vont naître, le diable au corps. Pourquoi ?
alors que rien ne sera fait pour les retenir

//la machinerie humaine est un art.

la protection intelligente sera donnée comme une augure.
nos itinéraires n’auront pas le chemin du milieu.
tout s’adaptera à l’absence.
nous vivrons sans parfum.

et le danger, cet extrait,
n’est pas celui-ci.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Sahara-620023092

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Prelúdio para cravo

*

Por Germano Xavier


deveria ser o começo
nas semelhanças, na gratidão esboçada,
na química atômica das palavras,
uma bela mostra do belo, uma apoderação
do instrumento /cravo em barroco francês/,
ou um Jean-Baptiste Lully, alma perdida no tempo,

deveria ser o tempo furtado, o não ter limites,
ser sem premissas em inesperado encontro,
em sincronicidade num mosaico de fragmentos,

Bach a nos falar, semelhante com semelhante,
canceriano filho da lua por ariana bruxa, que guitarreia
castiçais, ressonâncias, a domar caleidoscópios, transpor transes,
e porque temos fomes vorazes, semeamos iguais quenturas...

deveria ser em qualquer lugar, lábios entre os corpos,
sem adiantar correr nem supor o estrago, nem se indignar,
poder ter a coragem de negar o insensato querer
e na fantasia de nossas vidas, conceder em centúrias
os bons termos do mistério, do sexo, da lascívia e do amor.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Clavecinons-184675826