domingo, 11 de outubro de 2015

Poesia para driblar distópicas esquinas

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Por Germano Xavier


Lisa Alves é a autora do livro de poemas ARAME FARPADO, conjunto de escritos poéticos produzido sob a égide do Coletivo Púcaro e da Lug Editora/Nyx Poética. Para quem conhece um pouco de todo o seu movimento-percurso dentro dos campos da literatura – e que não é de agora, diga-se de passagem -, sabe muito bem que o verbo produzido por Lisa é material de se respeitar em demasia.

A mineira, radicada na capital federal há mais de uma década, estabelece em seu cortante ARAME FARPADO, um diálogo íntimo-comum de base existencial onde algumas das expressões mais pontuais parecem partir do seguinte questionamento: como manter-se vivo diante de tão imantada sociedade, de base distópica e essencialmente opressora?

A poetisa traça um percurso elucidativo – poesia elucida? – formatado em seis partes díspares, mas que se colidem fortemente em termos de conjunção temática, tratando de entrelaçar discussões acerca da formação do eu (ou dos eus, eus-nossos), de suas vivências afetivas, das experimentações mundanas e, por fim, das intermináveis conclusões destinadas ao império da palavra.

ARAME FARPADO é também um pequeno postulado sobre a utopia. Sim, sobre a utopia. Sem que seja vista, aqui, com aquele valor pejorativo ligado ao garimpo das impossibilidades vãs, mas sim a utopia de quem realmente possui dentro de si uma certa medida de esperança que não se dilui com o passar do tempo. Ressalta-se, pois, o desejo pelo enfrentamento. De lado, somente as crenças em forma de gás viajando ao vento.

Lisa Alves nos desafia a pular as cercas limítrofes do olhar, que terminam por inverter o real e nos promovem em tortuosidades e delitos. A partir da modulação em que todas as verdades são julgadas, a autora opera uma atitude bastante lúcida acerca das invisíveis superações diárias que brotam de nossas vontades. Denunciar o mal que desune para abrir espaço ao bem que agrega, eis a mensagem.


ARAME FARPADO em cinco inquietações:


1. Na primeira parte de seu ARAME FARPADO, há uma voz que ecoa várias (in)definições acerca de um (in)determinado EU. Dentro e fora, percebemos muitos eus. Qual o prognóstico de toda esta (des)composição, Lisa?

R: São tantos Eus que o futuro só a eles compete. Quando escrevo, principalmente quando componho um poema, desconecto desse Eu que transporto vinte quatro horas. Escrever dentro do meu processo criativo é gerar outras vozes. Não me desvinculo ao ponto de se tratar de algo psicográfico, não me compreenda mal! É que o Eu original é insignificante em Arame Farpado.


2. Inencontráveis são os limites e as fronteiras. Entre tais elementos, parece sempre haver um cercado ou um alambrado com arame farpado a impedir o encontro. Entre os remendos de um caos distópico e os encaixes da alvorada no céu das realidades, qual o território da poética de Lisa Alves em ARAME FARPADO?

R: As fronteiras estão por toda parte e nem sempre são externas ou palpáveis. O território que exploro em Arame Farpado está dentro e fora. Quantas vezes não conseguimos escapar de nós mesmos? Escapar de preconceitos, de ideias fortemente enraizadas pela cultura, pela religião e pelas filosofias de vida. Quantas vezes deixamos de prosseguir ou correr atrás de um sonho por medo? Há sempre um arame farpado dentro de nós e o lado de fora é só uma materialização do que somos. Eu não me espantei quando vi aqueles arames farpados no corredor dos Balcãs, entre a Turquia e a Hungria (em agosto passado), o que de fato me assustou foi pensar que aquelas barreiras foram projetadas antes dentro de sujeitos de uma mesma espécie. Há um arame farpado projetado dentro de nós. “Não Ultrapasse” parece ser uma palavra de ordem desse sistema.


3. Um arame farpado é o que separa a vida da morte em nossos dias?

R: O que está sitiado mesmo vivo (no sentido orgânico) está morto e o que está fora da cerca mesmo morto está vivo. E quem está fora da cerca? Ainda não conheci um sujeito completamente livre e percebo nossa humanidade como uma grande legião de zumbis, ninguém quer saber do antídoto e toda energia que nos resta é gasta na tola tentativa de devorar o outro. Infelizmente destruir o arame farpado não é cogitado.


4. Referências à maquinaria tecnológica moderna que enclausura o ser humano a todo instante estão muito evidentes no livro. ARAME FARPADO parece funcionar tal qual um grito opositor aos homens dotados de “corações de silício”. Um grito muito consciente, vale salientar. Procede?

R: Na verdade não é bem uma oposição, talvez uma constatação ou uma leitura poética dessa simbiose inevitável. Quando falamos de obsolescência programada, sou totalmente contra, apesar de amar tecnologia. Apesar disso não entro no jogo suicida da indústria e nem na dança do descarte irresponsável. Eu tenho o mesmo computador há anos e se o que preciso é de um processador bom ou um novo sistema operacional eu mesma troco isso sem precisar comprar outro hardware. Há uma maneira ética de se conviver com a tecnologia. A tecnologia faz parte do desenvolvimento da humanidade e o que faço é sempre me questionar: “Qual é a verdadeira necessidade de se consumir isso?” Mas voltando à pergunta, de fato há uma construção de um grito consciente em poemas como Corações de Silício, Cartilha do Missionário e Próximo que aponta bem isso:

(...)
Nosso apetite alargou:
temos fome de fibra óptica,
fome de silício,
fome de plasma,
fome de ver a realidade
projetada através de um elemento artificial.



5. Lisa Alves, “como você suporta”?

R: (...)
sou igual à multidão – resiliente.



ARAME FARPADO (LUG EDITORA, 2015), de Lisa Alves.
* Imagens: Acervo da autora.

3 comentários:

Douglas Almeida disse...

Como faço para ler, comprar o livro dela?
abrçs

Douglas Almeida disse...

Como faço para ler/comprar o livro?

Lisa Alves disse...

Oi Douglas segue o link: http://lisaallves.wix.com/lisaalves#!contato-e-venda/c1kcz

Grata pelo interesse.