quarta-feira, 19 de julho de 2017

Textos literários: como lidar com eles?


Por Germano Xavier


A sedução literária – sabemos - não necessita, obrigatoriamente, do que é enfeite, do que se apresenta tal qual um ornamento ou algo do tipo, e por um mero detalhe apenas: a sedução por si mesma não engrandece a criação, a obra, o valor de uma autoria. Todavia, há de se suspeitar – ao menos isso – de que a sedução presente em um texto literário mais importa pelo que revela ou desnuda o quanto de humano existe em uma determinada construção narrativa.

Dentro deste espectro de entendimento e de debate, presencia-se no mercado livresco a publicação de um grande quantitativo de livros destinados ao ensino prático de alguns domínios e técnicas voltadas à narração literária, e isso não é lá nenhuma imperiosa novidade. Como exemplo disso, podemos tomar o livro COMO MELHORAR UM TEXTO LITERÁRIO, da série Guias do Escritor, de Lola Sabarich e Felipe Dintel, publicado pela editora Gutemberg em 2014. Para os autores supracitados, na dada obra, a elaboração de um bom texto literário passa automaticamente e quase que unicamente – infelizmente, essa é a impressão que fica após a leitura do material - pelo conhecimento de uma base técnica de ferramentas, instrumentos e recursos que, quando dominadas com excelência por um eventual autor, possui a capacidade de fazer com que boas narrativas sejam criadas a quaisquer instantes e por quem assim desejar. Mas isso é realmente o bastante?

É óbvio que os autores do referido livro sabem muito bem que apenas dominar as técnicas de redação de textos literários não fará de um leitor comum um exímio escritor. Tal acontecimento pode até se dar, num enlace muito fortuito do destino ou do acaso, mas é bem aí que mora o perigo. Será que os leitores interessados nesse tipo de leitura – leia-se, manuais de escrita - possuem semelhante esclarecimento em suas mentes? Será que sabem que a literatura não é tão simples assim a ponto de se permitir dominar através da leitura de reles "10 mandamentos"? É, deveras, relativamente fácil se perder em tais diretrizes e ensinamentos camuflados ao melhor estilo “cartilha” ou “manual” e, assim posto, acabar por ver nascer uma enorme confraria de entusiastas na matéria que desconhecem outras práticas de aprimoramento da escrita de textos literários, e por vezes muito mais eficazes.

A mera criação de um texto literário não faz de nenhum leitor um artista, é preciso que saibamos disso. No texto “O direito à literatura”, Antonio Candido (1995, p.242), afirma que a literatura é uma “[...] manifestação universal de todos os homens em todos os tempos [...]”. Segundo ele, não há quem possa “[...] passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia [...]” (CANDIDO, 1995, p.242). Todos nós possuímos o direito de bolinar no que é do universo íntimo e natural da literatura. Porém, faz-se cada vez mais urgente o desenvolvimento de um sentimento de respeito para com tal órbita do conhecimento humano. Não que devamos respeitar tanto a ponto de nos distanciarmos dela, pelo contrário. Precisamos respeitar a literatura para que possamos adentrá-la em sua real magnitude e encantamento.

Muito antes de encararmos estes guias que nos fornecem as ferramentas ditas necessárias para o aprimoramento de um texto literário, que nos emprestam facilmente exemplos de como construir uma cena, de como caracterizar e construir personagens, de como manipular o tempo no texto, de como adaptar o ritmo narrativo à ficção, entre tantos outros “achados” imprescindíveis, é preciso compreender que a literatura, como salienta Colomer (2007, p.70), “[...] é um dos instrumentos humanos que ensina “a se perceber” que há mais do que o que se diz explicitamente. Qualquer texto tem vazios e zonas de sombra, mas no texto literário a elipse e a confusão foram organizadas deliberadamente. Como quem aprende a andar pela selva notando as pistas e sinais que lhes permitirão sobreviver, aprender a ler literatura dá oportunidade de se sensibilizar os indícios da linguagem, de converter-se em alguém que não permanece à mercê do discurso alheio, alguém capaz de analisar e julgar [...]”. Com outros gêneros ou tipologias textuais, você pode até tentar um domínio pleno de atuação perante o objeto de seu usufruto, mas com o texto de ordenação literária isso tende a se mostrar um tanto quando duvidoso e melindroso.

A linguagem literária é considerada por muitos um código bastante elaborado e apto a disfarçar outro, como se exercesse a partir e após ele mesmo um cruzamento de linguagens várias. Daí eu acreditar que não é o homem que está logo ali a caminhar e a criar narrativas, mas as narrativas é que estão a criar o homem e a ensiná-lo a caminhar. Daí, também, a importância de ler. De aprender a ler, ler profundamente, ler com todas as aberturas da alma, pois no fim de tudo, o que assume o plano primeiro em um texto literário é a sedutora - sim -, e também traiçoeira, palavra conotativa. Sendo assim, e de antemão, torna-se necessário mostrar a verdade – ou as verdades - e, por isso, a construção da fantasia não pode jamais terminar se transformando em um empecilho a essa ideia. E – convenhamos - dificilmente um guia de escrita de textos literários poderá ter a audácia de querer destrinçar tais nuances e segredos.

Se, de algum modo, a literatura, a leitura-fruição ou a leitura-prazer é capaz de amenizar os males, as marcas e as dores do caráter humano, de nos pôr mais sensíveis perante as coisas e o mundo, de nos projetar como sendo seres mais harmoniosos e solidários, por outro, o ato de ler abre nosso campo de visão de maneira irreversível. Um mundo melhor passa – não só, mas também – por uma literatura cada vez melhor, mais sábia, atuante e presente. Por isso, trabalhar com literatura deve sempre ser visto como um exercício de troca de perspectivas. Falar sobre literatura é, de algum modo, ser o outro no momento do outro, num movimento de compreensão e empatia mútuas. O trabalho com esse campo do conhecimento e da arte, como em qualquer outro, termina por ser inútil quando não há nenhuma pretensão de transformação, seja ela qual for.

Para mim, em assim sendo, será bem mais fácil ou bem mais provável imaginar que alguém possa “melhorar” um texto literário lendo um bom autor de textos literários do que lendo mantras de produção de textos literários recheados de táticas de elaboração redacional. Pois que, quando a leitura produz sentido ao homem, este mesmo homem pode exercer uma capacidade propriamente humana – a sua criatividade – e, assim, por meio da produção e da construção de sentidos, é avidamente capaz de transformar sua realidade (ROMÃO, 2006, p.34). Vamos pensar mais sobre isso?





* Imagem: http://escolakids.uol.com.br/texto-literario-e-nao-literario.htm

sábado, 15 de julho de 2017

As babéis de Ses (Parte XV)



Por Germano Xavier

"há sempre um mesmo cheiro / dentro dele a perdição"


O fim: o fim


tenho ouvido a sinfonia agreste dos horizontes,
bebido o suco escuro do mundo e das pessoas,
rumado ao mais bruto interior das fomes
e, com total sinceridade, teço o verbo que diz
não haver por perto nada semelhante ou quase igual.

elaborada a extensa exigência de meus recursos
de vista, crio ao te pensar a consistência atingida
dos revelamentos, dos estímulos, das necessidades.

é como se eu invadisse na noite fria teu laboratório
de fragrâncias e dominasse a prática de tuas desorientações.

o tema imprescindível para o poema foi-me dado.
destinar o amor ao que não tem fundamento e simplesmente
amar, muito amar, depois amar, inadequadamente amar.
amar e desamar, amar e desaguar, amar e reamar.

e quando eu estiver de novo a caminho de casa,
e quando aqueles crisântemos amarelos se alargarem
diante de meus olhos, perto da porta, da entrada,
por baixo dos nascimentos de sol das matinas
aprenderei a ver qualquer cor de mácula ou de excesso,
bonita e demoníaca, como um pensamento
ou um pedido para o que é justo ou, simplesmente,

um tinto mistério.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Internal-692755018
** A série de poemas AS BABÉIS DE SES, iniciada em 01 de setembro de 2016, termina aqui.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXVIII)



Por Germano Xavier



Dentro de nossos silêncios

Dans nos silences

dans nos silences le secret des envoûtés
celui de voir ce qui vit là-dedans
le secret des poètes
ceux qui transforment la douleur en art
à l’intérieur de nos silences demeure le secret des simples
qui consiste à trouver la beauté cachée

nos silences enferment le mystère des somnambules
qui continuent de marcher là-dedans
le secret des naufragés
qui s’arrêtent de respirer
le secret des croyants
qui ne posent plus aucune question
le secret des amants
qui s’aiment les yeux fermés
contre nos silences se blottit le secret des innocents
ceux qui ignorent ce qu’il leur reste à savoir
dans nos silences souffle le secret des divergents
qui vont au-delà des gents
ceux qui existent


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Between-Space-239-365-690499892

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Recado ao poeta quasemorto-quasevivo

*

Por Germano Xavier


"Se as páginas deste livro consentem algum verso feliz, perdoe-me o leitor a descortesia de ter sido, 
previamente, por mim usurpado. Nossos nadas pouco diferem; 
é trivial e fortuita a circunstância de que sejas tu o leitor destes exercícios, e eu seu redator".
(Jorge Luis Borges)


ousadia (você sempre ousava ir mais longe da multidão, ir mais perto das pessoas, dos abismos, dos segredos, dos prazeres, das proibições, das dúvidas, dos centros, dos arredores, das sombras. você sugava o tutano da vida e seguia invencível, irresistível. você ia. sempre ia onde o coração mandava (e os instintos também), nunca deixou de ir onde precisava ou morreria uma parte. ousadia maior do que o próprio ser. dessa paixão incontrolável e vital que torna os homens e mulheres especiais, como você, pessoas que merecem ser lembradas porque viveram suas vidas sem amarras, sem castração, sem covardia, sem desistir de quem são, sem falsos moralismos, não sem medo, mas com resistência e ousadia (cada palavra que você deixa de escrever, quando ela vem, é uma pequena violência que comete contra si, contra a poesia, contra a tua natureza. é autossabotagem, é auto-traição). você é um grande homem. soube desde que te conheci. é infinitamente maior do que todas as regras que te cercam e do que todas as forças que tentam te deter. você é um deus aberto. pedi a ajuda de Rilke. ninguém melhor do que ele falou da impossibilidade de um escritor de verdade ficar sem escrever. "morreria se lhe fosse vedado escrever?" morre-se de não poder ser o que se é. morre-se de amor que não. morre-se disso lenta e diariamente. e não apenas quando se desce ao túmulo. "sou forçado a escrever? se a reposta for "sou", então construa a sua vida de acordo com essa necessidade... depois, procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde". a caneta está grudada em tua mão, em teus olhos, em tua alma. você olha o mundo com as palavras. teus olhos enxergam em cores de poesia. teu mundo é feito de palavras, sentimentos, beleza, dor, poesia e amor multiforme. "por isso, caro senhor, ame a sua solidão e carregue com queixas harmoniosas a dor que ela lhe causa. diz que os que sente próximos estão longe. isto mostra que começa a fazer-se espaço ao redor de si. se o próximo lhe parecer longe, os seus longes alcançam as estrelas, são imensos. alegre-se com esta imensidade para a qual não pode carregar ninguém consigo... mas a sua solidão há de dar-lhe, mesmo entre condições muito hostis, amparo e lar, e partindo dela encontrará todos os caminhos. todos os seus desejos estão prontos a acompanhá-lo e minha confiança está consigo". por isso e por tudo o que sei que és, te seguirei de perto sempre, mesmo se longe, como amigo poeta. estarei perto e tua palavra estará dentro.

sinto falta de paixão em tua escrita. de fúria. de fé. e me dói saber. havia muita. havia antes. há um bastante indolente sentimento de fim. de perda. de parada. de cansaço. você soa pessimista. mesmo quando não. você soa vencido. parece, às vezes, um animal enjaulado em si e no mundo. mas é muito maior do que as grades invisíveis. só precisa saber e ser. você era uma voz em chamas, não pode ser apenas uma voz trágica. chamas no corpo, no coração, nas letras. tu. tanto que incendiavas sempre quem chegasse mais perto... floresta incendiada por tuas chamas multiformes. hoje sinto peso em tua voz. o peso de teus ombros, a lida desgostosa de teus dias, a falta de tua crença... tudo dói em tuas letras. dói em consonância com a minha dor... para mim, você é sempre a mesma chama inteira. e longe. sei o que traz dentro. e sinto. eu falo da paixão em cada letra. da vida embriagada de beleza que você via nas coisas. da rebeldia em descrever cruamente mesmo o que poderia chocar os olhos dos hipócritas. da originalidade do olhar, do ponto marginal de onde você via o céu das coisas. um céu só teu. da naturalidade com que expunha tanto o belo quanto o asqueroso, o abjeto. da escolha estonteante das palavras, sem pensar na mediocridade de quem vai ler, mas na integridade e beleza do que você vê. da sua fidelidade às origens, na escrita... é disso que estou falando. escrever sem filtros. sem pensar antes, sem podar os galhos mais preponderantes. são eles que melhor te representam. entregar-se à tua escrita. isso você fazia. escrevia inteiro, sem negar-se, sem esconder-se. sem considerações prévias, sem medos de repressão. você é que impunha medo. você se impunha. você empunha seu verbo e todos que saiam da caminho.

se eu pudesse resumir em uma frase a tua escrita atualmente, seria: você está escrevendo de olhos abertos. e de olhos abertos, toda escrita é cerceada. citei Borges acima (não apenas porque a ele você ouviria), mas também porque ele fala aqui da indissociabilidade do autor e escrita e leitor. são uma coisa só quando se juntam os três. por isso, o que há no escritor é o que chega ao leitor, sejam quais forem as cores dele. elas que chegarão. sempre. por mais ficção que seja a escrita. ele diz também que primeiro é o escritor que sente o prazer, a paixão, a dor ou o que quer que seja que o poema, o texto, a arte em si possa revelar ao leitor. se ele não sente, tampouco o leitor sentirá. o leitor sentirá apenas o que tiver atravessado a obra, do coração do autor até os olhos e corações do leitor. o sangue vem junto, ou não. quando não vem, é estéril para quem olha. quando vem, a gente é fuzilado pela arte e morre feliz. morre de amor e de beleza e de espanto bom. eu morro sempre com teus textos. morro porque sinto você neles. morro de prazer de ver o invisível e sentir o que estava em você e compreender tão bem, mesmo que não os tenha vivido. é preciso estar cego de paixão para escrever apaixonadamente. e não importa pelo que. pode ser até paixão por uma cebola. mas é preciso paixão. vital paixão. e eu gostaria de dizer: apaixone-se por algo, mas nós dois sabemos que paixão, assim como o amor, é algo que não se fabrica, não se planeja e não se controla. paixão é bala perdida.

sobre escrever de olhos abertos, penso que está censurando a sua escrita antes mesmo de ela ser um feto. está matando-a no ovo, ou seja, em teu coração. tua escrita está desvinculada de tua célula-núcleo. você a está enfraquecendo e disfarçando-a ainda na fonte. tua escrita não tem te representado de fato e de verdade. apenas ao homem público que você tenta ser (ou não). você a está cortando-a, mutilando-a, disciplinando-a, domando-a (por mais motivos do que eu possa imaginar). mas imagino que um deles seja pensar no efeito dela em a, b ou c (o que a pensará disso que escrevi?) isso eu não posso expor, isso eu não posso revelar, isso eu não posso assumir, isso eu não posso insinuar, isso eu não posso sentir, isso eu não posso criticar, isso eu não posso assumir, isso eu não posso desejar... isso eu não posso por nas entrelinhas. e se eu por, terá que ser bem simbolicamente, bem incompreensível (assim a clareza dos poemas é comprometida, porque por mais "pós-moderno" que um texto possa ser, precisa ser minimamente compreensível aos leitores médios, ou será apenas um quadro abstrato, surrealista, inacessível, impossível...) lembra de quando as pessoas vinham se identificar com teus textos dizendo que você escreveu exatamente o que elas vivem? era porque você escrevia o humano visceralmente. assim que é a vida, humanos em redemoinhos, em conflitos, em desalinho com o outro, com o amor, com o mundo, consigo. é o homem em desejos insanos, em êxtases de prazer e de dor, em descobertas do novo, em tentações de sensualidade, em tentações de "pecados", em quedas e arrependimentos, em paraísos provisórios que acreditam eternos, em perdas e danos, em quedas livre, em subidas ao céu, em apocalipse, em arrebatamento. enfim. é o caos. somos caos. escrever humanamente é escrever sem restrições, sem medo de expor as vísceras, sem pudores. mas você "civilizou" demais a sua escrita. e assim, você cria um código de "honra" para a sua literatura, um cânon, uma limitação, um território pré-definido, uma fronteira intransponível, uma vida literária reduzida ao "politicamente correto" de sua atual vida atual. tua literatura tão livre e descomprometida antes, você agora tem tentado moldá-la aos padrões aceitáveis ou mais recomendáveis e assim, destituindo-a de tua própria essência (ícone maior de tua escrita, ela própria, em suma). sem tua essência (apaixonada, febril, inquieta, impulsiva, corajosa, um pouco inconsequente, atrevida, sensível demais, curiosa, camicase, solitária, filosófica, divergente, insurgente, resistente...) a tua escrita é apenas um compêndio estética e tecnicamente produzido e organizado por um homem que escreve muito bem e até impressiona. mas só. mas como Capote falou, com o dom, vem também o chicote. é a tua essência que dá energia, brilho e sedução à tua escrita. com a tua essência a tua literatura impressiona, apaixona, aprisiona, fascina, gruda feito gosma verde, feito lodo velho, feito barro novo, feito placenta. sua escrita está aprisionada em sua mente. ela é livre em seu coração, mas você não permite que ela chegue ao papel como foi concebida. você a "trata" em sua mente, perdendo assim a rude beleza de sua forma original. e sabe de uma coisa... conhecer você é um abismo maior do que eu. porque você me desconhece. me desconhece profundamente. não que não me adivinhe, até imaginas como sou. mas não te interessas em saber por que. e não é porque ache que não saber é poesia. porque sei como é o teu querer, o teu querer é foice, facão e salto. quando queres com paixão, arrebentas os muros, as cercas, as convenções. e me dói saber que não fazes mais isso. nem por nada. e eu quero te ver fazendo isso, não importa por qual razão. me sentiria melhor em saber que estás doentemente apaixonado por... e sendo o vulcão que sempre foi do que estando tu apenas vegetando a vida, sem paixão e sem audácia... você se domesticou. se tornou um bom homem dono de casa, dono de nome, dono de um jeito pré-definido de agir. está cortejando a massa, embora ainda não seja ela. ainda sejas um sujeito-além, uma voz em chamas e um destino a se construir. sabemos que os altos, os montes, as estradas, as praças, os monumentos, as favelas, as tribos, os vales, os horizontes, as distâncias, as delícias, o imprevisível e os dias sem agenda te esperam, você ainda não se inaugurou em muitas coisas. não pense que já. o melhor, o que ainda não, ainda está por vir. assim, sinta a palavra sem cálculo tocando na pele como um raio de sol, simples como uma gota da chuva de ontem à noite, deixa ela chegar sem pensar e passar de teus olhos para o coração e escorregar para os dedos sem passar pela cabeça. assim, beije a palavra sem nojo, sem assepsia, sem necrópsia, sem autópsia, sem anomalia. corpo natural sem prosódia, sem retórica, sem gramática. como palavra nua. assim, a palavra é a saliva doce de quando beija a vida e faz amor com a poesia.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/But-I-Would-115270038

quinta-feira, 6 de julho de 2017

As babéis de Ses (Parte XIV)

*

Por Germano Xavier

"há sempre um copo de mar / para um homem navegar"
(Jorge de Lima, em Invenção de Orfeu)


O fim: para quando a cólera


grão inteiro,
tudo começa no teu amor,
tudo resvala
na inconsútil imprecisão da dor
ou de certos valores que deliram.

íntegro núcleo,
generosa região de todas as obras,
parece que buscaremos a terra
nas rebeliões de nossa história.

semente prenhe,
língua germinada na voraz novela
das vistas incompletas,
sê tu o prêmio pela densa criação
inconfundível.

sê, para quando a cólera,
abandonada à produção das exuberâncias,
sucumbir numa enorme edição de nadas,
o fim | o nosso fim |
que principiará a última festa úmida das febres:

espeto, fresta, comedimento e drama
| interno labor dos corpos |
eterno


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/lost-at-sea-690770053

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXVII)

*

Por Germano Xavier



Quinta-feira, 10 de Agosto de 2016

Prelúdio para Cravo


Prélude pour Clavecin

ça aurait pu être le début
vu les ressemblances et la gratitude esquissée,
vu la chimie atomique des mots,
un bel exposée sur la beauté, s’approprier l’instrument/un clavecin du baroque français/,
où un Jean-Baptiste Lully, l’âme égarée dans le temps,

ça aurait pu être le temps volé, l’absence de limites,
exister sans les prémisses d’une rencontre inattendue,
synchronisée dans un mosaïque de fragments,

Bach nous parle, nous sommes des semblables
Cancer fils de la lune par une sorcière de Bélier qui joue la guitare
des candélabres et des résonances domptent les caléidoscopes
et transposent des transes,
et parce que nous avons des faims voraces
nous semons les mêmes chaleurs…

ça aurait pu être n’importe où, les lèvres entre les corps,
rien ne servirait alors de courir, de prévoir les dommages ni de s’indigner,
avoir le courage de nier le désir insensé
et dans la fantaisie de nos vies, concéder en centuries
les bons termes du mystère, du sexe, de la volupté et de l’amour.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Clavecin-wip-cordes-2-336030976

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXVI)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Sábado, 30 de Julho de 2016
Templo do Tempo

Le Temple du Temps


En pleine mer, sans ancrage
Ni voiles, nous voilà enracinés
À la dérive de la machine révélatrice les destins.

En pleine mer du Temps, ce gaucher
Qui accomplit des milliers de désastres
Nous marchons brouillés d’incertitudes
Et prenons le cap, allongés dans l’impermanence.

Cette mer dévoile ce que l’on prend, en flagrant délit
Nos faits les plus anodins, c’est la mer
Qui étale sur terre les mécanismes de l’enfer.

En pleine mer déferlent des vagues de supplice,
Dont la force isole des sueurs libidineuses
Les transformant en larmes chastes d’illusion.

La mer, ce Temple aquatique du Temps,
Ce grand noir profond, juge et masque
Ce qui plonge en lui, tout en étant libérateur.

En pleine mer mon dos chancelle,
Et à l’intérieur même des malédictions du jour,
Je m’assois sur ce que restera encore de moi. Pour la vie.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Special-Vers-02-690285173

sábado, 1 de julho de 2017

A vida errante de Magerno Raviex

*

Por Germano Xavier


soube adiantar o passo:
passou para o lado oposto das ruelas
antes logo de qualquer impasse.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Evil-and-victim-689880907

sexta-feira, 30 de junho de 2017

As babéis de Ses (Parte XIII)

*

Por Germano Xavier

"a grande sinfonia escutei por teus lábios"


O fim: um lendário sempre


dê-me ouvidos:
sobre a correspondência dos atos
e a forma avessa das pedras espalhadas no tempo
está a grande obra de nossas carnes:
a posição e o ofício das mãos.

instrumentos que fazem abrir os rótulos das mudanças,
as mãos são as medidas do charme e da inteligência
que existem nos excessos.

dê-me ouvidos:
nossas mãos iniciaram a Grande Guerra dos mucos e salivas.
emocionalmente, entenderam mais sobre o fogo
que nossos corações alquebrados.
nossas mãos entrevistaram a umidade hiperbólica das obsessões.

e nesse universo, dentre toques e invasões,
na clandestina guerrilha das possessões,
manter, decerto, o olhar cético
ao fazer das criações, à propriedade do amor,
foi acerto.


Imagem: http://www.deviantart.com/art/Distant-688986242

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (Parte LXXV)

*

Por Germano Xavier

"tradução livre"



Terça-feira, 19 de Julho de 2016
A chaminé


La cheminée

aucune arme ne m’effraye plus
que l’imminente désincarnation
que l’on appelle l’amour.

la rouille, la mécréance, la tragédie…
lubrifient les pas vers la mort,
vers la flemme finale.

nos corps vaincus,
qui montaient avec la triste fumée
par la cheminée de la vie commune.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Untitled-689403783

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Dentro das muitas chuvas amarelas

*

Por Germano Xavier


"Não desejo mais ser feliz,
e sim apenas estar consciente."
(Albert Camus)


Peguei o livro do Walter Moreira Santos -  depois de ter lido O metal de que somos feitos - intitulado de Dentro da chuva amarela e, depois de 2 dias de leitura intercalada aos afazeres diários, cheguei à última página. O relato do escritor pernambucano é um baque nas estruturas ligadas ao cuidado e tratamento da depressão e do pânico no Brasil - e também no mundo. 

Nele, você encontrará:

* Um compêndio de medos, dramas e traumas;
* Um romance autobiográfico;
* Um livro de auto-ajuda;
* Um manual de como botar médicos e psicólogos no bolso;
* Um universo muito universal;
* Um real significado para o termo "depressão";
* Uma narrativa, diria, fundamental para estudiosos e curiosos de diversas áreas;
* Um modo corajoso de dizer as coisas;
* Um silêncio que explodiu;
* Um tipo de chuva muito ácida para quem a toma.


(Semente, 2006)

domingo, 28 de maio de 2017

De que metal somos feitos?

*

Por Germano Xavier



Dia desses, fiz uma visita a um professor do curso de psicologia da UFRPE/Campus Vitória de Santo Antão e quando, num rápido desenlace acerca do assunto principal de nossa conversa, começamos a flertar com o tema literatura, o professor me perguntou algo sobre o escritor Walther Moreira Santos, sujeito da referida localidade e que é hoje um daqueles nomes a serem guardados em nossa literatura dita contemporânea. Prontamente, disse que sim, que eu já ouvira falar nele e que, inclusive, o Walther acabara de levar o IV Prêmio Pernambuco de Literatura, concurso que eu também havia participado e que eu terminara como um dos 14 finalistas dentre um total de 250 obras inscritas. Todavia, parei por aí. Eu não havia lido absolutamente nada dele até então.

O simpático e antenado professor, sem titubear, destarte, foi até um dos cômodos de sua casa e me trouxe dois livros de autoria de Walther e me disse com uma voz vitoriosa: - Pronto, são seus agora. Leia-os! Fui para casa. Depois que me assentei da viagem e de um bom banho, fui fazer uma pesquisa acerca do autor em questão. Logo soube que de sua lavra já são mais de duas dezenas de (bons) livros, entre eles UM CERTO RUMOR DE ASAS (2000), HELENA GOLD (2003), O CICLISTA (2008), DENTRO DA CHUVA AMARELA (2006) e O METAL DE QUE SOMOS FEITOS (2013), com o qual venceu o I Prêmio Pernambuco de Literatura. Por falar em prêmios literários, o escritor tem disputado e vencido importantes premiações da área. O reconhecimento, ainda que mínimo, não demorou a surgir e fazer reluzir seu nome.

Pois bem, O METAL DE QUE SOMOS FEITOS, livro que motiva este meu curto resenhar, é um compêndio que agrega 12 contos e uma novela. O autor burila com um fenômeno-mor (A história) e tece uma fina cadeia entre os sentidos de sua ficção e os sentidos da realidade dos homens. Para isso, intercala doses estratégicas acerca das diversas formas de violência e suas simbologias. A Bíblia também é revisitada e uma espécie de arrebatação universal turva e por vezes abominável faz-se presente na quase totalidade do enredo dos contos da obra.

A vida, enfim, é a ponte usada por Walther para alicerçar seus saltos e lampejos a cada frase construída. A vida amolada, desgastada, afiada, corrompida por seres humanos também amolados, desgastados, afiados até não poderem mais. Em cima desta ponte, bem no centro dela, está um grande bloco metálico que impede os transeuntes de passarem de um lado para outro. Há um discurso sobre liberdades e aprisionamentos. Há nos textos de O METAL DE QUE SOMOS FEITOS uma barreira e uma surpresa sempre vivas. Mas a surpresa, aqui, quase sempre não é transformada em um sinônimo para desfechos felizes.

Apesar de alguns naturais tropeços, o bordado de O METAL DE QUE SOMOS FEITOS evidencia uma escrita cujo alvo retira qualquer privilégio ligado a uma possível imanência estruturalista que se volte a alguma espécie de verborragia linguística infame e/ou até desnecessária. Em consonância para com o pensamento que o estudioso búlgaro Tzvetan Todorov avalia como positivo (vide A LITERATURA EM PERIGO), talvez o maior trunfo do livro de Walther seja mesmo o de se aproximar do mundo, do real, da vida, de uma maneira simples e direta. Sua verdade - a verdade do livro -, portanto, sofre bifurcações e não se aliena ao poder intrínseco do texto e somente ao texto. O METAL DE QUE SOMOS FEITOS é um livro sobre nós com o mundo, sobre nós no mundo, sobre nós e sobre o mundo. Por isso, já vale a leitura.


(Editora Cepe, 2013)


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/MAY-010-683182622
https://www.skoob.com.br/o-metal-de-que-somos-feitos-376014ed424697.html

sábado, 27 de maio de 2017

As babéis de Ses (Parte XII)

*

Por Germano Xavier

"A luz no subsolo é um poema sem ouvidos..."


O fim: nunca mais


a luz no subsolo,
metálica alvura, ladina, venal,
amola e desgasta e afia a ânsia
ou a beleza de tudo.

meu pai foi o criador dos desertos,
ensinou a mim sobre a triste, dura e árida
realidade. meu pai foi o Messias.
para ele, e depois também para mim,
o fim perverso dos entalhes da vida
era a fábrica de todas as condenações.

e você, diante do nervoso pecado,
crucificou os infortúnios,
acusou de tênues as areias da arte.

coroamos um ditador simpático
a nós: o desagrado pela falsa guerra
do amor.

por fim,
queimaram nossos livros,
depuseram nossos líderes de alma,
mataram a Grande Satisfação,
fecharam as fronteiras das ambições,
sorriram como se algozes empossados de verdades,
como se conhecessem todas as vielas do Inferno,
sorriram.

sorriram para nós.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/luna-moth-157435380

sábado, 20 de maio de 2017

O pronunciamento

*

Por Germano Xavier

#foracanalhas



contrata-se a melhor palavra pior
o discurso do bem muito mal
a garganta paralítica dos mil perigos claros
a coberta fria das mentes absurdadas
o estupor sem gratuidade

joga-se a palavra o ser da palavra o sentido da palavra
a vida da palavra na palavra
sua força luz cor

em desamor

em que mundo
estaremos beirando
o precipício quando
a palavra perder sua flor como agora
quando o amor se desligar do outro como agora
quando a razão for só desolação como agora
quando essa herança frágil de verdades for
como sempre

ou como agora


* Imagem: https://pimentacomlimao.wordpress.com/category/politica/

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Poemas de Germano Xavier em Francês (LXXIV)

*

Por Germano Xavier


"tradução livre"



Quinta-feira, 14 de Julho de 2016
Num dia em que o sol não veio muito


Ce jour-là le soleil s’endormait


Ce jour là le soleil était timide
(il préférait les nuages et les ombres)
la mer était calme
(elle préférait le silence
d’un vendredi treize
qui préférait le mystère).
Un enfant est né alors
entre les rêves, la poésie et l’inquiétude

ses silences
et ses expéditions intimes
vers le monde des mots
ont fait de lui un être particulier
(il pleuvait parmi les arbres)

un être statique
(il a connu des paradis infernaux
et des enfers paradisiaques)
ce poète voyageur
(sans destin) en quête
de mots signifiants
(il préférait sentir)
qui s’assemblent sans arrêt autour des vers
pour être là
et vivre le mot- le goût- la poésie

griffonnait sur des feuilles
et les mots écrivaient leur propre destinée
avec des teintes d’amour
sur la paume du monde
il était une pluie paisible

il est le poète et le poème
et le mot qui blesse
(il préférait partir à pleurer les adieux)

il a un sens
et crée des religions
le secret de son regard
est un regard profond
il est un vert-muguet
le muguet même
c’est le chaos
un astre en contre-courant
un poète


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Sol-Andino-680226043

segunda-feira, 15 de maio de 2017

As babéis de Ses (Parte XI)

*

Por Germano Xavier

"No vazio, nada nasce..."


A estreita concepção do perigo


uma concepção estreita
do perigo, no desligamento
do mundo ou no que nele vive,
impõe o ensino da dor escrita
ou o regozijo da glória.

mesmo muitos sendo
e a procura imensa,
por sua vez o livro da existência
tem razão: ele é o que se pode dar.

a entrada,
o propenso ramo,
o adentramento,
a atribuição,
o condensado.

a fortaleza escondida do amor de carne viva
vive e opera a fina face do abismo
no metal de que somos feitos,
na letra subsolar das conversações d'alma...

e o nunca mais (o nunca mais)
inventa cria de olhos em vulgo
(e assim) e persiste em assolar.


Imagem: http://www.deviantart.com/art/Turkey-680519998

quinta-feira, 11 de maio de 2017

A medida da penumbra

*
Por Germano Xavier



na medida certa do infinito, a penumbra.
na medida incerta do agora, a penumbra,
de prantos ou êxtases, de milagres e epifanias.

em expansão dicotômica, ultrapassa as fronteiras
de luz e escuridão, rearrumando o equilíbrio
do que só existe quando se vê.

na medida elástica do desejo, a penumbra
elabora, em constantes furtivas, a poesia,
em aposentos eternos e em retinas em transe.

na medida certa de incidência, a penumbra
refaz a ordem de espaço e tempo num incansável agora.

na medida certa da visão-além-olhos,
a penumbra anula exatidões de certezas
e reposiciona o abismo dentro de nossos concretos.

na medida certa do silêncio, a penumbra fecha janelas
para formação de infinitos e incalculáveis abismos
dentro de nossas liberdades.

a penumbra: palavra-abrigo-constante,
em música-imagem-fuga,
imprime-nos, em alma-corpo-memória,
finos contornos de paz com sua lírica fonética.


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/B-r-i-c-k-s-116119272

domingo, 7 de maio de 2017

Entre Mares e Marés: Conversas Epistolares (Parte XIV)

*


Viana, amigo querido,

Há tempos atrás comecei a sentir-me culpada pelo atraso na resposta à tua carta, como todas, sempre tão cheia de vida e de boas vibrações.

Durante algum tempo essa culpa seguiu-me, perseguiu-me, até me atar mãos e braços e me impedir de te escrever com liberdade e total “falta de vergonha”, no melhor dos seus sentidos. Tenho ou tive por momentos alguma vergonha, e aqui na sua aceção mais penalizante, por não ter conseguido manter o ritmo que se impõe a uma conversa entre amigos.

Resumindo, quando passou a culpa veio a vergonha e quando me livrei de ambas resolvi enfim ir ter contigo, por este mar feito de palavras que é a única estrada que temos. Aqui me tens, com todas as minhas ausências, disposta a ouvir os ralhetes e desaforos que possa ter merecido – embora saiba que não terei que passar por essa amarga experiência, porque tu és das pessoas mais tolerantes e cordatas que eu conheço.

Então, Viana, não te posso contar tudo o que vivi neste lapso de vários meses, mais precisamente desde agosto passado. É muita coisa em atos, em vivências, em fracassos, tentativas ou sucessos, mas por outro lado sinto que se diz em pouquíssimas palavras ou num simples bocejo. Continuo a insistir para que venhas cá, e então estas cartas vão-se transformar num diálogo mais difícil porque mais próximo e é sempre mais difícil falar com alguém de frente, sem poder emendar o que se disse ou escreveu, pois não se podem rasurar sorrisos, palavras gaguejadas, mal-entendidos, gaffes ou um arroz queimado por esquecimento. Estas experiências presenciais partilhadas implicariam que nos desnudássemos um pouco mais e nos permitíssemos viver com palavras reais, com sons e tonalidades, que se dizem antes de serem escritas. E talvez jamais o sejam.

Mas sei que pelos pequenos fragmentos de episódios que te vou contar és capaz de me reconstruir à distância com tanto rigor e realismo que chega a parecer que sou obra tua. Deixa-me dizer-te, para me perceberes neste exato momento, que hoje está um dia maravilhoso, e olha que os domingos costumam ser egoístas e não dar a conhecer a alegria que trazem dentro. Pelo menos por aqui, para mim.

Pois hoje o domingo levou-me até uma ampla praça no coração da baixa lisboeta, o Martim Moniz, onde há sempre animação de rua assim que começa a aparecer o sol, desde que o local foi reabilitado. Para teres uma ideia, é aquele tipo de espaço cheio de barraquinhas e roulottes, neste caso roulottes de comida temática e algumas tendas de artesanato, frutos secos, roupa alternativa, no sentido de que não representa a moda atual nem de nenhuma época, talvez mesmo de nenhuma geografia, mas apenas o gosto que quem expõe e a curiosidade de quem vê, apalpa…e às vezes compra. Voltando às roulottes, que lá em Luanda se chamam ou chamavam lanchonetes, aquela que a minha amiga gere com o marido tem umas sanduíches de picanha de se lhe tirar o chapéu, cogumelos com molhos inconfessáveis e uma sangria de beber e chorar por mais. Eles vão percorrendo o país inteiro entre festivais e festividades locais, todos os lugares onde aquele conceito possa ser apreciado, comida de rua, para se saborear sem pretensões, com requinte mas ao mesmo tempo uma rusticidade que aguça o paladar e puxa por uma boa conversa. Mas digo-te eu que o que os distingue de outros expositores não é só a qualidade e a originalidade do que vendem, mas o sorriso permanente e genuíno, a simpatia e a descontração. Para quem compra e também para quem apenas olha e ali se enraíza por infindáveis minutos sentindo o cheiro dos grelhados e dos temperos.

Entretanto há uma coisa fabulosa que te deve acontecer também, (diz-me que sim para não me sentir tão solitária) … há um instante preciso em que estás a viver uma experiência agradável e de repente sentes necessidade de escrever e de registar as tuas impressões. Podes fazê-lo num telemóvel, num tablet ou mesmo num caderninho vermelho como aquele que eu perdi há semanas (e ainda não me recompus); mas se a torrente de ideias e palavras for longa precisas de um computador e vens a correr para um sítio onde possas ter acesso a esses meios, que te permitem contar e efabular. Para nós, que escrevemos, isso também é viver, viver duas vezes e em discurso indireto. E depois essas histórias já são outras, porque tu não vives só aquilo que te aconteceu e testemunhaste mas também aquilo que te ficou subliminarmente agarrado aos sentidos, fica uma quase memória paranoide em que viste e ouviste milhares de outros pequenos enredos para além daqueles que efetivamente te foram oferecidos pelos dias. Sossega, não é esquizofrenia criativa, apenas um desabafo que ouvirás com indulgência, tenho quase a certeza. A propósito de caderninho vermelho, é sério, Viana, tinha um de formato A6, julgo eu, um caderninho amoroso e com uma capa estofada como um sofá onde eu de vez em quando escrevia quando não tinha computador; tinha lá poemas inacabados, retratos, ideias soltas e tópicos para desenvolver. E sobretudo muitas folhas brancas que me fascinavam pelas infinitas possibilidades que ofereciam. Retratos de pessoas que poderei nunca mais ver, talvez por isso tivessem uma importância singular. Feitos a esferográfica, que é o meu instrumento de eleição.
Se alguém se lembrasse de pedir resgate, eu saberia que pelo menos essa pessoa, por piores que fossem os seus instintos ou intenções teria percebido a importância do caderninho para mim. Mas ninguém o fez ainda, o que me leva a pensar que talvez um dia, quando o meu aspirador cá de casa se enfurecer, esse caderninho apareça envolto em pó por trás de algum móvel mais pesado ou dormindo sobre um chinelo velho. Rezemos por isso.

Viana, eu já te falei também daquele interesse que tenho em conhecer mais sobre os caminhos da fé, sobre a ritualização da igreja, o cerimonial, as orações, os cânticos… não é um tema sobre o qual fale facilmente, mas contigo falo sobre tudo, até sobre aquilo (sobretudo sobre aquilo) que não conheço bem. Eu estou a dar os primeiros passos num caminho que costuma ser trilhado por crianças – sinto muitas dúvidas e questionamentos, mas creio que só assim esta aprendizagem poderá ter um significado profundo para mim. Quando tal caminho se converter num sacramento, como espero e desejo, quero ter-te aqui também. Faz por apareceres.

Quero dizer-te também que tenho coisas em mãos que me motivam e emocionam: alguns textos em prosa para tentar descrever o que leio nos espantosos quadros da Armanda, outros em poesia que mostram o que me trouxe a fotografia dos olhos da Sant’ana, que tu conheces e conhecerás um bocadinho mais ao longo dos anos, pois o que ela tem para desvendar é muito, inesgotável.

Eu sei que a última vez que nos escrevemos por este canal estavas cheio de raiva no sangue, não uma raiva vingativa mas uma coisa justiceira e redentora. Uma indignação contra tudo aquilo que tentamos corrigir no mundo e que nos foge das mãos, contra a hipocrisia, contra a maldade, contra a manipulação, contra a indiferença. Diz-me em que temperatura anda a tua raiva, como a tens canalizado, o que fazes quando ela te queima as mãos. Eu escrevo, mas não chega.

Agora eu vou ficar à espera que tu me mandes aquele abraço que me falta, que me contes tudo o que se passa à tua volta mas sobretudo dentro de ti, nessa cabecinha fértil e atenta ao mundo.

Um beijo muito grande, agora por cá, ouço falar em “abreijos”, parece-me uma coisa simpática. 

Recebe o meu carinho da forma que te for mais conveniente.

Clara,


Lisboa, 12 de Março de 2017.



************


*



Clara, queridíssima,

Talvez eu seja daquelas espécies que não se adaptam. Em Biologia, diz-se que são as que não sobreviveram. Por não conseguirem se adaptar ao meio ambiente, hostil demais para elas, essas espécies desapareceram da face da Terra, tão-misteriosamente quanto apareceram. Talvez eu seja desses humanos sensíveis demais, como aquelas espécies, frágeis ou incapazes de enfrentarem as hostilidades e prevalecerem sobre o meio e sobre os seus iguais-adversários. Pois já se nasce lutando. Mas nem todos nascem equipados para a guerra. Fato. Algumas nascem para a paz, para a contemplação, para a poesia ou para virarem história. São esses, geralmente, que acabam sendo as vítimas, os que não ultrapassam o tempo nem escrevem a História. No final das contas, são os guerreiros e os conquistadores que contarão a história. Do minúsculo ponto de vista de suas espadas ou de suas presas, é claro. Para estes, que não se incomodam em quanto sangue tenham que derramar, em quantos golpes baixos tenham de dar ou com quantas vezes terão de vender a alma por dia, somente para "estar-ali". Para estes, o que importa é a conquista. Não importam quantos ficaram pelo caminho, quantos viraram mártires, fósseis, patrimônio, estátuas ou poesia. Nada deve deter o progresso, dizem. Mas o progresso não implica em evolução. Ao menos, não em evolução humana.

Talvez sejamos (posso incluir você nesta lista?), eu e os outros poucos remanescentes dos ancestrais-que-não-evoluíram, uma espécie frágil demais para a barbárie. Sensível demais para a guerra. Nós, assim como eles, pequenos animais que não inspiram medo, de pouca esperteza e inocência muita, não desenvolvemos habilidades para a batalha diária pelavida-pelopão que se trava por território, por parceiros, por sucesso, por amor, por cavernas e tudo o mais. Talvez sejamos simplesmente primitivos demais para a evolução, para isso que chamam de civilização.

Talvez nós, humanos sensíveis-demais para a liquidez da pós-moderrnidade, sejamos como aqueles insignificantes ancestrais que, de tão atacados e atropelados pela manada furiosa de seus contemporâneos, buscaram um buraco qualquer entre um rio e um vale para fugirem de seu fim, para de lá olharem, desiludidos e revoltados, para a fascinante e inalcançável liberdade no horizonte. Talvez apenas, como eles, nos recusamos. Concluímos que a luta é injusta demais, estúpida demais, inútil demais e insana demais para lutarmos. Dizemos não e ficamos. Quedamo-nos entre o campo de batalha e os apelos de nossa alma livre. Nos mandam conquistar o poder, seja ele de dinheiro ou posições, seja ele de carne e osso ou de terras férteis e nativos inocentes. Nos mandam chegar ao topo, seja ele infértil de paz ou sujo de sangue. Apenas chegue, dizem. Recusamos. Ficamos encurralados e sozinhos, por vezes feridos e com fome, mas livres dentro de nossas cavernas pessoais, dentro de nossos pequenos ninhos internos, mas ficamos. Porque a guerra, antes de matar o inimigo, mata a nossa alma. Não batalharei, exceto pela sobrevivência da humanidade em mim, dizemos. Nós e os ancestrais que viraram fósseis. Mas fósseis leais à sua espécie. Que seja em uma caverna, que seja. Que seja em pequenas recusas e protestos. Que seja. Talvez, para animais não bélicos como nós, a melhor estratégia seja recusar-se e, assim, e com obstinada oposição, resistir.

Sabe, Clara... outra coisa...

Gosto de observar as pessoas no shopping. Aprendo muito quando exercito o meu observar. Ali, mais do que em qualquer outro lugar, elas se revelam e é possível ver ou imaginar o que as motiva, o que elas são ou querem aparentar ser. No shopping as pessoas não se individualizam, elas se misturam, se tornam multidão. No shopping não há pessoas. Há consumidores. E é em torno do consumo que todos se unem. Somente. No shopping a única linguagem é a do dinheiro, ou a do direito do consumidor. Em suma, vale-se o quanto se pode pagar. O fato é que o consumidor hoje é mais importante do que a pessoa. Mas o mais triste é que, se olharmos bem, as pessoas não estão felizes (apesar de todo o consumismo delas). Estão entediadas. Porque logo depois de cada compra, surge a necessidade de comprar outro objeto. A sedução da propaganda diz que se além daquela blusa tiver aquele sapato para combinar com aquela bolsa ou tiver aquele celular que faz milagres, aí sim, ficará feliz. Assim, sempre faltará algo, um acessório a mais, uma marca a mais, um modelo diferente, uma vida a mais. No fim, o que resta é a insatisfação pela falta. Nunca será possível saciar a vontade de consumir porque os objetos de consumo são infinitos.

Tirando os compradores compulsivos, cuja doença deve ser tratada em suas origens pelos profissionais especializados, o cidadão comum é que está sendo levado nessa avalanche de consumo, sem se dar conta de que está apenas gerando lucro para outros e correndo atrás de um fantasma.

O Minimalismo é um Movimento relativamente novo, de origem incerta. Inspirado nas Artes e que tem por lema "viver com o mínimo" possível, fugindo do consumismo e da acumulação de bens materiais e objetos desnecessários. Na essência, é um movimento pela sustentabilidade, em favor do planeta e de uma vida mais simples e equilibrada. A ideia central é comprar apenas o que vai usar e de que não pode prescindir. Reduzir é o segredo. Desapegar-se de tudo o que não precisa e refletir sobre o que é importante.

Há alguns anos, sou adepto deste Movimento. Mesmo antes de saber que ele tinha um nome (risos). Há algumas vertentes, algumas mais radicais. São pequenas atitudes que são um protesto ou simplesmente uma recusa em fazer certas coisas que todos fazem por "obrigação", como por exemplo, comprar roupas/tudo de marcas famosas/estrangeiras ou comer no McDonald's, etc. Pois bem, não faço uma coisa e nem outra. Prefiro comprar de uma empresa brasileira, de preferência de pequenos produtores a engrossar as fileiras das cópias consumistas que, de tanto imitar e usar tudo igual, fazer/pensar tudo igual, não sabem mais quem eram e do que gostavam antes de virar xerox. Não penso que isso vai mudar o mundo, mas é uma pequena gota num oceano de desintegração de identidades. É como se fosse aquele passarinho tentando apagar o incêndio na floresta. Mas a verdade é que aquela fábula não é tão absurda assim. Ela faz algum sentido quando queremos ser um passarinho que não admite ficar assistindo passivamente enquanto o seu mundo está destruído. Ao menos, não o seu metro quadrado. Enquanto puder, manterei o meu metro quadrado o mais livre possível, o mais criativo possível e o mais aconchegante e não contaminado de consumismo possível. Consumir não é preciso. Resistir é preciso.

Estava pensando nisso esta tarde, quando fui ao cinema ver "A Cabana". (Aliás, não gostei. Ridículo. Patético e altamente manipulador, infantilizado demais! Nunca vi argumentos tão fracos para responder questões tão sérias como a origem do sofrimento, a passividade e/ou crueldade de Deus, etc. Sofrível!, como quase todos os filmes de cunho religioso/espiritualista.

Clara, perdoe-me. Fiz questão de escantear os assuntos tratados em tua carta, para lhe desferir estas duas passagens. Todavia, prometo retomar os assuntos abordados por tua pena numa próxima conversa nossa. Prometo.

Meu carinho. E sigamos... 

Caruaru-PE, 07 de maio de 2017.


********

Clara e Viana são dois amigos de longa data que se redescobrem e desenham o mundo à sua volta pelas palavras que encontram, que constroem e que usam para pintá-lo. (De longa data em face da finitude da vida, recentes diante da imensidão da eternidade). Mas, que importa isso? Eles propõem-se descobrir dois universos complementares, sem artifícios nem maquilhagem, para além das máscaras habituais, as que protegem o ser humano da solidão e das agressões.

Clara e Viana são dois heterónimos, duas personagens que ganham vida através do tempo, do ritmo da palavra e do sabor dos respectivos sotaques.

Luísa Fresta e Germano Xavier dão vida a este projecto.
* Imagens: Cristina Seixas

Equívocos

*

Por Germano Xavier


a)

é nostalgia de mim
puramente o que sinto
agora que passaram
(em marcha fúnebre)
diante de meus olhos
todas as minhas crenças
e esperanças
de que não fossem
toda esta vida e este mundo
um equívoco doloroso
uma piada de mal gosto
ou um odioso roteiro
de um sádico



b)

encurvado
sob os golpes da noite
o dia entrega-se
sem resistir
sem esboçar um mínimo balbuciar
de rebeldia
como a paz que,
igualmente impotente,
despede-se de mim
sem remorso,
sem solução


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/hitori-botchi-alone-661834506

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Ensaiando destinos




Por Germano Xavier



é necessário coragem
para ensaiar destinos
para sucumbir no risco
para inevitar a morte
para incitar fraquezas

como foi o caso da secundária ponte
caída durante a primeira chuva
como foi o que minou eliminado
diante da separação extraordinária

coragem
para escrever poemas
para combinar palavras
para decidir sentidos
para desviar os ditos

como é a certeza dentro de nós
quando tudo parece invadido
como é o rude padrão do amor
que não se guarda em estoques

coragem necessária
para tender ao abismo
para conquistar violências
para o furor químico das traições
para simplesmente parar

e ocorre que esse caos ao qual obramos
faz triunfar a editada técnica da vida
e o fracasso interrompe o que jamais se frustra

como será o elaborado humano
no tanto das reações pequenas
como será aquele que não somos
na indiferença nua das provocações?


* Imagem: http://www.deviantart.com/art/Dardo-viajero-657516855